O Discípulo e a Renúncia

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;” Mt 16.24

 

Eis, neste versículo, algo que tem a capacidade de nos arrebatar o sono. Cristo, ao discursar a seus discípulos, lhes propõe algo: neguem a si mesmos. Renunciem suas vontades e desejos.

Para entender melhor o contexto do versículo 24 deste capítulo do evangelho de Mateus, é necessário voltar alguns versículos, até o de número 21. Vejamos, então.

“Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.” Mt 16.21-23

Nestes versículos, vemos que o Senhor Jesus estava demonstrando aos seus seguidores que iria morrer, que deveria negar a própria vida para que a vontade do Pai fosse realizada. Após, o apóstolo Pedro, tomado de uma suposta compaixão, começou a reprovar a Cristo, dizendo que nada disto deveria lhe suceder. Após repreender a investida de Satanás, o Mestre então dá início ao versículo tema deste texto. Ele nos dá o exemplo, para que depois nos apontar a lição.

Então, tratado deste detalhe sobre o contexto do versículo tema, convém falar de alguns aspectos sobre “palavras-chave” muito bem expostas.

Em primeiro lugar, Cristo estava falando para seus discípulos. Entenda, ser discípulo é muito mais que ser aluno. Discípulo é aquele que segue, de perto, e literalmente, o seu mestre. Vai muito além de apenas aprender o que o seu senhor e professor faz. É uma relação de “sombra”: o que o mestre faz, o discípulo deve imitar.

Francis Chan e Mark Beuving¹ definem de forma acertada sobre isso, quando dizem que “é impossível ser discípulo ou seguidor de alguém e não acabar ficando parecido com aquela pessoa. Jesus disse: “O discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre” (Lc 6.40). Este é o ponto central quando o assunto é ser discípulo de Jesus: nós o imitamos, damos continuidade ao seu ministério e, nesse processo, nos tornamos iguais ao mestre.

Ser seguidor de Cristo, discípulo, é sinônimo de “renúncia”. Devemos abrir mão de nossas vontades, daquilo que achamos que nos define e sermos cada vez mais parecidos com o nosso Mestre, sendo transformados pelo agir do Santo Espírito de Deus, como escreve Paulo aos de Roma (Rm 12.1-2).

Em segundo ponto, a expressão “vir após mim” deve ficar muito bem gravada em nossos corações e mentes. O discípulo não deve querer ir à frente de seu mestre, mas sim segui-lo. Há um velho ditado em Israel que afirma que, ao final do dia, todo discípulo deve estar coberto pela poeira levantada das sandálias de seu mestre. Na caminhada Cristã não é diferente.

Não podemos ter a ousadia de achar que, em dado momento, alguma atitude pode ser tomada sem oração, sem que o Senhor Deus seja consultado. Não podemos dar um passo maior que nossa perna, colocarmo-nos na frente de nosso Deus e agir por impulso. Não devemos “seguir o nosso coração”, pois ele é extremamente enganoso (Jr 17.9). Seguir a Cristo é pisar onde Ele pisou, fazer o que Ele fez, agir como Ele agiu.

No passado, conforme Lucas narra em At 11.19-26, os discípulos de Jesus foram chamados de “cristãos” pela primeira vez, pois se pareciam com seu Mestre, tendo o fruto do Espírito, pregando a Palavra e vivendo o Poder de Deus.

Também, precisamos estar atentos que devemos renunciar a nós mesmos. Em sua carta à igreja da Galácia, no capítulo 5 e versículos 16 e seguintes, o apóstolo Paulo narra a luta entre a carne e o Espírito quanto à nossa vontade. Uma coisa fica muito clara nesta passagem: nossa natureza não quer seguir a Deus. Em outra carta, a que escreveu aos irmãos de Roma, o mesmo apóstolo afirma que sua natureza carnal muitas das vezes o dominava, quando ao descrever o processo da santificação (Rm 7).

É necessário entender que esta renúncia está no fato de que devemos abandonar a velha vida, as velhas práticas, e viver algo novo, como verdadeiras “novas criaturas” (2Co 5.17), por Deus chamadas para realizar Sua boa obra.

Ainda, devemos nos atentar ao fato que Cristo nos ordena a tomar a nossa cruz e a seguí-lo. A cruz era, acima de tudo, sinal de humilhação. Todo judeu sabia que quem morresse pendurado no madeiro seria considerado maldito de Deus (Gl 3.13). Ao afirmar que morreria na cruz, e que seu discípulo deveria carregar a sua própria, Cristo estava dizendo que não devemos esperar um tratamento diferente, por parte do mundo, daquele que Ele recebeu. Devemos esperar a humilhação, perseguição e ódio. Tomar a cruz significa carregar, nos ombros, o “peso do Evangelho”, e levar o fardo e jugo dos ensinamentos do Mestre.

Esta renúncia, também, não pode ser entendida como o “apenas” negar-se. Ela deve ter um propósito. No versículo 25 deste capítulo 16 do evangelho, segundo Mateus, Cristo afirma que todo aquele que “perde sua vida” por causa dEle, haveria de achá-la na eternidade. Nosso propósito ao renunciar nossa carne, prazeres mundanos e tudo aquilo que nos afasta do Senhor não pode ser porque somos coagidos a fazê-lo, mas sim por amor e gratidão a Jesus. O que move a vida de um verdadeiro discípulo de Jesus não é o medo da condenação eterna ou de consequências por culpa de nosso pecado, mas sim a profunda gratidão a Deus, pela sua misericórdia e Graça, nunca desprezando a bondade do Pai, pois é ela que nos guia ao arrependimento (Rm 2.4).

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

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