A Necessidade da Morte de Cristo

“Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?”

Lucas 24:26

Primeiro, vamos falar sobre a gravidade do pecado:

Nada é mais útil e eficaz para mostrar a malignidade do pecado e a profundidade de sua miséria do que examinar o seu preço, assim como como o poder de uma enfermidade pode ser vista pela força do remédio, e o valor da mercadoria pela grandeza do preço que custa. Os sofrimentos de Cristo expressam o mal do pecado, muito acima dos mais severos juízos sobre qualquer criatura, tanto em relação à grandeza da pessoa como à amargura do sofrimento. Os gemidos agonizantes de Cristo mostram a natureza horrível do pecado aos olhos de Deus. Como O Filho de Deus era maior que o mundo, assim seus sofrimentos declaram que o pecado é o maior mal do mundo. Quão mal é esse pecado que deve fazer Deus sangrar para curá-lo! Ver o Filho de Deus sendo morto pelo pecado é a maior manifestação da justiça de Deus, que revela a tão pesarosa injustiça do pecado. A terra tremeu sob o peso da ira de Deus quando Ele puniu a Cristo [que tomou sobre si o nosso pecado]. Os céus estavam escuros como se estivessem fechados para O Filho, e Ele chora e geme, e nenhum alívio aparece; nada além do pecado era a causa meritória disso. O Filho de Deus foi morto pelo pecado da criatura; se houvesse outro modo de expiar um mal tão grande, se houvesse honra em outro meio, se fosse possível exercer justiça de outra forma e se Deus pudesse ser inclinado a perdoar sem que o pecado fosse compensado pela morte, Deus não teria consentido que seu Filho passasse por tão grande sofrimento.

Nem todos os poderes no céu e na terra poderiam nos trazer novamente à graça de Deus, [estávamos destituídos da Sua glória por causa do pecado (Rm 3:23)]. A Santidade de Deus é o ápice da Sua justiça e, sem a morte, nenhum outro sacrifício diria da Sua Santidade para preservar a honra da veracidade e justiça de Deus. Se Deus é Santo e Justo, o pecado deve ser punido na mesma severidade de acordo com a proporcionalidade em que Seu caráter é ferido. Nada além da graciosa interposição de Cristo se tornando mortal e bebendo das taças da ira de Deus poderia acalmar a justiça divina; nada além das Suas intercessões, suportando os golpes que cabiam a nós, dos quais éramos dignos, poderiam remover a miséria da criatura caída. Toda a santidade da vida de Cristo, sua inocência e boas obras, não nos redimiu sem a morte. Foi por isso que Ele fez uma expiação pelos nossos pecados, satisfez a Justiça vingativa de seu Pai e nos recuperou de uma morte espiritual e inevitável.

Quão grandes eram nossos crimes, que não podiam ser apagados pelas obras de uma criatura pura, ou a santidade da vida de Cristo, mas requeriam a efusão do sangue do Filho de Deus para o seu cumprimento! Cristo em Sua morte foi tratado por Deus como nós seríamos tratados no inferno, Ele se tornou digno de ira, por ter tomado o nosso pecado. Se Cristo não tivesse sido Homem e tomado o nosso pecado Ele nunca seria sujeito à morte, pois Ele não tinha pecado próprio e “o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23). A bondade e a justiça de Deus como Criador jamais consentiria com a aflição de qualquer criatura sem uma causa, muito menos o Seu infinito amor consentiria em ferir ao seu Filho. Algum mal moral deve, portanto, ser a causa; pois nenhum mal físico é infligido sem algum mal moral anterior. A morte, sendo um castigo, supõe uma falta. Cristo, não tendo nenhum crime próprio, deve então ser um sofredor em nosso lugar:

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.”

Isaías 53:6

O pecado foi transferido para Ele e Ele foi visto como nós éramos vistos. Vemos então como o pecado é odioso para Deus e, portanto, deve ser abominável para nós. Devemos ver o pecado nos sofrimentos do Redentor, e então nos rendermos ao Seu amor. Devemos, então, nutrir o pecado em nossos corações? Isto é ter prazer em usar de nossas mãos para perfuraram as mãos dEle, nos deleitarmos em produzir os espinhos que perfuraram a cabeça dEle, e fazer dos gemidos agonizantes dEle o nosso desprezo. Viver em pecado é negar a morte de Cristo e a Sua ressurreição, anunciando que Ele ainda deve sofrer novamente; é trazer o Cristo que é ressuscitado e ascendido, sentado à direita de Deus, novamente a Terra para levantá-lo em outra cruz e dominá-lo em uma segunda sepultura. É permanecer inimigo de Deus, indiferentes a Sua Justiça e ao sofrimento de Cristo. Nossos corações precisam reconhecer a necessidade da morte de Cristo e, crendo nela, abandonarmos nossos pecados pelo arrependimento com o coração aberto, assim como o coração de Cristo foi aberto pela lança.

Segundo, não estabeleçamos nosso descanso em nada produzido por nós mesmos:

Não descansemos em nada abaixo do Cristo agonizante; nem mesmo no arrependimento, fé ou em alguma reforma. O arrependimento é uma condição de perdão, não uma satisfação de justiça; ele move a bondade divina para afastar o julgamento, mas não é uma compensação para a justiça divina. Não pode o arrependimento ser, em si mesmo, um ato de saciedade da justiça, pois há erro no pecado arrependido. A satisfação de Deus não pode ter uma origem diferente do próprio Deus, antes deve andar em igualdade, tanto para o ferimento como para a pessoa ferida; a satisfação que é suficiente para uma pessoa privada injustiçada não é suficiente para um príncipe justamente ofendido; existe diferença pela dignidade da pessoa.

Ninguém pode ser maior que Deus e, portanto, nenhuma ofensa pode ser tão cheia de maldade quanto ofensas contra Deus; e algumas lágrimas serão suficientes nos pensamentos de qualquer um para eliminá-las? O mal feito a Deus pelo pecado é de um grau mais alto do que compensado por todas as boas obras das criaturas, embora da maior elevação. O arrependimento de qualquer alma é tão perfeito a ponto de poder responder à punição que a justiça de Deus requer na lei? E se a graça de Deus nos ajudar em nosso arrependimento? Não pode ser concluído a partir daí que o nosso perdão é formalmente adquirido pelo arrependimento, mas que estamos dispostos por ele para receber e valorizar um perdão. Não é congruente com a sabedoria e a justiça de Deus conceder perdões a rebeldes obstinados. O arrependimento não é dito em nenhum lugar para expiar o pecado; um “coração partido é chamado de sacrifício”.

“Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.”

Salmos 51:17

Mas não com valor propiciatório. O pecado de Davi foi expiado antes que ele escrevesse esse salmo, (2 Sm 12:13). Ainda que um homem possa chorar tantas lágrimas ao ponto de fazer um oceano com elas, ainda que envie tantas saraivadas de orações até que se tornem gemidos, vindos de qualquer criatura desde a fundação do mundo; ainda que ele pudesse sangrar gotas de seu coração como foram despejadas das veias de bestas sacrificadas, tanto na Judéia quanto em todas as outras partes do mundo; ainda que ele fosse capaz e realmente concedesse em caridade todos os metais nas minas mais preciosas, ainda assim, isso não poderia absolvê-lo da menor culpa, nem purificá-lo da sujeira mínima [de seus pecados], nem obter o perdão do menor crime por qualquer intrínseco valor nos próprios atos. A morte de Cristo nos garante a vida. O sangue de Cristo extingue o fogo da ira contra o pecado que acendeu no seio de Deus contra nós. Visar qualquer outra forma de apaziguar a Deus, do que a morte de Cristo, é fazer a cruz de Cristo sem efeito.

Terceiro, portanto, sejamos sensíveis à necessidade de um interesse na morte do Redentor:

Não pensemos em beber as águas da salvação de nossas próprias cisternas, mas das feridas de Cristo. Não tirar a vida dos nossos próprios deveres mortos, mas dos gemidos agonizantes de Cristo. Nós temos culpa, podemos expiar por nós mesmos? Estamos sob justiça. Podemos alcançar a paz por qualquer coisa que possamos fazer? Existe uma inimizade entre Deus e nós. Podemos oferecer-lhe qualquer coisa digna para ganhar sua amizade? Nossa natureza está totalmente corrompida, podemos curá-las? Nossos serviços estão imundos, podemos purificá-los?

Há uma necessidade tão grande em aplicarmos a morte de Cristo a nós mesmos. O leproso não foi purificado e curado pelo derramamento do sangue do sacrifício por ele, mas a aspersão do sangue do sacrifício sobre ele (Lv 14:7). Como a morte de Cristo foi predita como a causa meritória, assim a aspersão do seu sangue foi predita como a causa formal da nossa felicidade (Is 52:15).

Por seu próprio sangue Cristo entrou no céu e na glória, e por nada além de seu sangue podemos ter a ousadia de descansar, ou a confiança para alcançá-Lo (Hb 10:19). Toda a doutrina do evangelho é Cristo crucificado (1Co 1:23) e toda a confiança de um cristão deve ser Cristo crucificado. [Caso contrário], Deus não teria misericórdia do homem pela negligência de sua justiça, embora o homem seja um miserável.

“Não farás injustiça no juízo; não respeitarás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo.”

Levítico 19:15

Será que Deus, que é infinitamente justo, negligencia a sua própria regra? Nenhum homem é objeto de misericórdia até apresentar uma satisfação à justiça. Como há uma perfeição em Deus, que chamamos de misericórdia, que exige fé e arrependimento de sua criatura antes que ele conceda perdão, há outra perfeição de justiça vingativa que requer satisfação. Se a criatura pensa que sua própria miséria é motivo para mostrar a perfeição da misericórdia, deve considerar que a honra de Deus requer também o conteúdo de sua justiça. Os anjos caídos, portanto, não têm misericórdia concedida a eles, porque ninguém jamais satisfez a justiça de Deus para eles. Não vamos, portanto, cunhar novas maneiras de obter perdão, e falsos modos de apaziguar a justiça de Deus. O que podemos encontrar além disso, capaz de lutar contra as queimadas eternas? Que refúgio pode haver além disso para nos proteger da fúria da ira divina? Podem as nossas lágrimas e orações ser mais prevalentes do que os gritos e as lágrimas de Cristo, que não puderam, com toda a força deles, desviar a morte de si mesmos, sem a nossa perda eterna? De jeito nenhum, mas somente fé em seu sangue. Deus no evangelho nos envia a Cristo e Cristo pelo evangelho nos leva a Deus.

E quarto, valorizemos este Redentor e a redenção pela sua morte:

Visto que Deus estava decidido a ver seu Filho mergulhado em um estado de vazio vergonhoso, vestido com a forma de um servo e exposto aos sofrimentos de uma cruz dolorosa, ao invés de ter deixado o pecado impune, nunca devemos pensar nisso sem retornos agradecidos, tanto para o Juiz como para o Sacrifício. Por que Ele foi afligido, senão para termos paz com Ele? Por que Ferido, senão para curar nossas feridas? Por que trazido perante um juiz terreno para ser condenado, senão para que pudéssemos ser levados perante um Juiz Celestial para sermos absolvidos? Por que sobre Ele caíram as dores da morte, senão para nos derrubar os grilhões do inferno? E por que foi amaldiçoado na morte, senão para sermos abençoados com a vida eterna? Sem isso nossa miséria seria irreparável, a distância que nos apartava de Deus seria perpétua. Que comércio poderíamos ter com Deus? Enquanto nos separamos dEle por crimes de nossa parte, que justiça faríamos a Ele? O muro deve ser quebrado, a morte deve ser vencida, a justiça deve ser feita e a bondade de Deus ser novamente comunicativa a nós.

Essa foi a maravilha do amor divino, agradar-se com os sofrimentos de seu único Filho, a fim de que Ele se agradasse de nós por conta desses sofrimentos:

“Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão.”

Isaías 53:10

Nossa redenção foi tal, como pela morte e pelo sangue de Cristo e, portanto, não era uma graça vã. Tinha sido assim, se tivesse sido apenas redenção vazia; mas sendo uma redenção pelo sangue de Deus, ela merece, do apóstolo, não menos um título do que “riquezas da graça”, Deus ficou satisfeito com os sofrimentos de seu único Filho, para que Ele pudesse estar satisfeito conosco por conta das ofensas sobre seu Filhos (Ef 1:7). E Deus requer de nós, ao menos, tal reconhecimento. Logo, podemos aprender com isso, que era absolutamente necessária a morte de Cristo!


Retirado de “Christ our Passover in his Works”. 2019 © Traduzido por Amanda Martins, revisado por Elnatan Rodrigues.

Stephen Charnock

Stephen Charnock (1628-1680) foi ministro presbiteriano na era puritana. O legado teológico de Charnock repousa principalmente em seus Discursos sobre a Existência e os Atributos de Deus.