Os Cânones de Dort (5): Chamado dos Eleitos


Nesta série, vamos entender o que significou Os Cânones de Dort com o Dr. R. Scott Clark. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno dos Cânones de Dort é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é o quinto artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


A primeira coisa que as igrejas reformadas disseram em resposta aos Remonstrantes, querendo levar as igrejas de volta a originalidade da salvação pela graça e nossa cooperação com a graça, era, com efeito, “somos pecadores demais para sermos salvos por qualquer outro meio que não seja o favor incondicional de Deus” (sola gratia).

A segunda coisa que os Reformados fizeram em resposta aos Remonstrantes foi citar duas passagens: 1 João 1:9 e João 3:16.

Art. II. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos’ (1 João 4:9, João 3:16).

A má notícia é que todos nós estamos caídos e somos incapazes de nos salvar. A boa notícia é que Deus ama os pecadores eternamente e incondicionalmente. Ele os ama tanto que enviou seu Filho unigênito para salvar aqueles que não podem salvar a si mesmos. Como então seus eleitos se beneficiam daquilo que Deus, em Cristo, fez?

Art. III. E para que os homens sejam levados a crer, Deus misericordiosamente envia os mensageiros dessas boas novas a quem Ele quiser e na hora que quiser; por este ministério os homens são chamados ao arrependimento e a fé em Cristo crucificado. “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas” (Rm 10:14-15).

O Sínodo estava seguindo e explicando a confissão anterior da Igreja Reformada, no Catecismo de Heidelberg (1563):

65. Desde então, somos feitos participantes de Cristo e todos os seus benefícios pela fé somente, de onde vem esta fé?
R: O Espírito Santo opera a fé em nossos corações pela pregação do santo evangelho e confirma isso pelo uso dos santos sacramentos.

Estamos unidos a Cristo, pelo Espírito, somente através da fé (sola fide). O mesmo Espírito Santo, “o Senhor e Doador de vida”, que nos traz à nova vida, também nos dá a verdadeira fé. Os sacramentos certificam que o anúncio do Evangelho, no que acreditamos, é realmente verdadeiro.

Que instrumento ou meios o Senhor usa para nos trazer uma nova vida e a verdadeira fé? No Heidelberg, confessamos que o Espírito usa a pregação do evangelho para criar essa nova vida e verdadeira fé. O Sínodo reafirmou essa mesma verdade, citando Romanos 10:14-15. Os eleitos são trazidos para uma nova vida por ouvir uma mensagem e, para que isso aconteça, deve haver mensageiros. É por isso que, nas Igrejas Reformadas, a pregação é uma grande convocação. Não é porque somos “clericalistas”, isto é, não se trata de investir ministros com poder e autoridade para controlar os leigos. Pelo contrário, temos uma grande consideração pelo ministério porque estamos convencidos da Palavra de Deus (por meio, por exemplo, de Romanos 10) que nosso gracioso Senhor desejou usar ministros e a pregação pública da Palavra para realizar Seus propósitos. Ele estabeleceu o ofício do ministério e, por meio de sua igreja, enviou-os para realizar uma função vital: pregar as boas novas. Isso é uma misericórdia para os pecadores. Deus não nos envia o que merecemos. Ele retém sua ira contra nós porque já derramou sobre Cristo, o nosso Substituto.

Esses ministros são “mensageiros” de suas “boas novas”. É claro que os pastores devem pregar a lei. Eles seriam infiéis se fracassassem nesse dever, mas a única coisa que marca os ministros cristãos, além de sua ordenação ao ofício, é a mensagem deles: as boas novas, que Cristo veio, que Ele sofreu e obedeceu em nosso favor, que Ele morreu, ressuscitou, subiu, reina e volta em glória para julgar os réprobos e resgatar seus eleitos.

É através de tal pregação que Deus se agrada, quando e onde deseja chamar seu eleito ao arrependimento (reconhecimento de seu pecado e miséria) e à fé em Cristo, isto é, a uma viva confiança em Cristo nosso Substituto e Salvador.

Os calvinistas são conhecidos por defenderem a doutrina cristã bíblica e antiga da eleição – nós não a inventamos. Nós herdamos isso – mas estamos igualmente comprometidos com a doutrina dos meios. É fácil fazer uma caricatura dos reformados, como sempre falando sobre predestinação. Talvez vivamos com muita frequência essa caricatura, mas estamos igualmente comprometidos com a doutrina de que o mesmo Deus que ordenou os fins também ordenou os meios. De fato, sabemos muito mais sobre os meios do que sabemos sobre os fins. Nós sabemos que Deus elegeu um povo e reprovou os demais, mas não sabemos quem Deus elegeu ou quem Ele reprovou. Isso compete a Deus¹. Sabemos, no entanto, que Deus ordenou pessoas para ir e pregar e uma instituição através da qual essa pregação é feita: sua igreja visível. Este foi o ponto de vista de Paulo em Romanos 10. O capítulo 9 vem antes de 10, obviamente, mas está no fundo conceitualmente. Nós pregamos com confiança porque sabemos que, nos bastidores, por assim dizer, Deus está elaborando seus propósitos. Ele está usando a “loucura” (1 Co 1:25) do evangelho para trazer Seu povo para uma nova vida e para a verdadeira fé.


[1] Christopher Love em seu artigo “Eleição & Predestinação” aprofunda-se mais sobre esse tema. Love argumenta que temos condições, até certo ponto, de saber quem são os eleitos a partir de uma análise dos frutos comparando-os às Escrituras, entenda melhor o assunto clicando aqui.

2019 © Traduzido por Amanda Martins, revisado por Elnatan Rodrigues. Texto original em The Heidelblog, essa série pode ser encontrada também em Abounding Grace Radio.

R. Scott Clark

Dr. Clark estudou na Universidade de Nebraska (EUA), no Westminster Seminary California e no St Anne's College , na Universidade de Oxford. É ministro das Igrejas Reformadas Unidas na América do Norte desde 1998.