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A Doutrina do Arrependimento (5)


Nesta série, vamos debruçar em torno da doutrina do arrependimento com Thomas Watson. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno da doutrina do arrependimento é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é quinto artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


(…) O arrependimento é como um remédio espiritual, composto de seis ingredientes especiais:

  1. Visão do pecado (tratado no artigo anterior);
  2. Tristeza pelo pecado (tratado no artigo anterior) ;
  3. Confissão do pecado (tratado no artigo anterior);
  4. Vergonha pelo pecado (tratado neste artigo);
  5. Ódio pelo pecado (próximo artigo);
  6. Desviando do pecado (próximo artigo).

Se alguma dessas virtudes é deixada de fora, o arrependimento perde sua veracidade.

Ingrediente 4: vergonha pelo pecado

O quarto ingrediente do arrependimento é a vergonha: “para que se envergonhe das suas maldades” (Ezequiel 43:10). O rubor é a cor da virtude. Quando o coração fica obscuro pelo pecado, a graça então torna o rosto avermelhado de vergonha: “Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus” (Esdras 9:6a). O pródigo arrependido ficou tão envergonhado de seu excesso que ele se considerava não mais digno de ser chamado de filho (Lucas 15:21). O arrependimento causa uma santa vergonha. Se o sangue de Cristo não estivesse no coração do pecador, então não poderia haver a manifestação de seu rosto avermelhado pela vergonha. Há nove considerações sobre o pecado que podem causar vergonha:

1. A Vergonha da Culpa

Todo pecado nos torna culpados, e a culpa deve gerar vergonha. Adão nunca se envergonhou no tempo da inocência. Enquanto ele mantinha sua pureza, ele não tinha o rubor da vergonha em seu rosto; mas quando ele deflorou sua alma pelo pecado, então ele ficou envergonhado. O pecado contaminou nosso sangue. Somos culpados de alta traição contra a coroa do céu. Isso pode causar uma santa modéstia e vergonha.

2. A Vergonha da Ingratidão

Em todo pecado há muita ingratidão, e isso é uma questão de vergonha. Aquele que é repreendido pela ingratidão irá envergonhar-se. Nós pecamos contra Deus quando Ele não nos deu nenhuma causa: “Que injustiça acharam vossos pais em mim?” (Jeremias 2:5a). Em que Deus nos fadigou, a menos que suas misericórdias nos tenham cansado? Oh, quão gotas preciosas que caíram sobre nós! Nós tivemos o melhor do trigo; nós fomos alimentados com comida angelical. O óleo dourado da bênção divina desceu sobre nós por meio da cabeça de nosso eterno Arão, [isto é, Cristo]. Não podemos abusar da bondade de um Deus tão bom, como isso não nos constrangerá?! Júlio César tinha por próximo seu amigo íntimo Brutus [o amigo íntimo de Júlio César, ajudado a esfaqueá-lo até a morte em 44 a.C.], a quem ele havia concedido tantos favores, porém Brutus o apunhá-lou: “O que, tu, meu filho Brutus?!” Ingrato! O urubu é capaz de tirar toda fragrância de um perfume da misericórdia de Deus, e trocando-a por toda doença do orgulho e luxúria, quão indigno é isso; trocar o bem pelo mal, desprezando o nosso Alimentador (Deuteronômio 32:15); fazer das misericórdias de Deus uma seta para confrontá-Lo, feri-Lo com sua própria bênção! Oh, horrível ingratidão! Isso não tingirá nossos rostos de um escarlate profundo? Não nos envergonharemos por tamanha afronta? Ingratidão é um pecado tão grande que Deus mesmo demonstra grande indignação: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o Senhor tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim.” (Isaías 1:2).

3. A Vergonha da Nudez

O pecado nos deixou nus e isso deve gerar vergonha. O pecado nos despojou do nosso linho branco da santidade. Nos fez nus e deformados aos olhos de Deus, isso tinge nossos rostos em vergonha. Quando Hanun abusou dos servos de Davi e cortou suas vestes para que sua nudez aparecesse, diz o texto, “estavam aqueles homens sobremaneira envergonhados” (2 Samuel 10: 5).

4. A Vergonha da Cruz

Nossos pecados puseram a nossa vergonha sobre Cristo, e não deveríamos nos envergonhar por isso? Os judeus vestiram-no de púrpura; eles puseram uma bastão de madeira em sua mão, cuspiram em seu rosto e em suas maiores agonias o insultaram. Aqui estava “a vergonha da cruz”; e aquilo que agravava sua vergonha era considerado a eminência de sua Pessoa, como Ele era o Cordeiro de Deus. Nossos pecados causaram a vergonha de Cristo e não nos envergonharemos por isso? Ele vestiu nossa vergonha, e as nossas faces não vestirão o carmesim da vergonha? Quem pode contemplar o sol como se estivesse se envergonhando com a paixão de Cristo, e se escondendo em um eclipse, e seu rosto não se envergonhar?

5. A Vergonha de Ceder ao Diabo

Muitos pecados que cometemos são pela instigação do diabo, e isso não deveria nos causar vergonha? O diabo colocou no coração de Judas o desejo de trair Cristo (João 13:2). Ele encheu o coração de Ananias para mentir (Atos 5:3). Ele frequentemente desperta nossas paixões (Tiago 3:6). Agora, assim como é uma vergonha produzir um filho de forma ilegítima, os pecados também chamam o diabo de pai. Diz-se que a virgem Maria concebeu pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1:35), mas muitas vezes concebemos pelo poder de Satanás. Quando o coração concebe orgulho, luxúria e malícia, muitas vezes é pelo poder do diabo. Não pode isso nos envergonhar ao pensarmos que muitos dos nossos pecados são cometidos em ligação com a antiga serpente?

6. Vergonha pela Fúria do Pecado

O pecado, como Circe [uma feiticeira na lenda grega que deu sua taça mágica aos companheiros de Ulisses e os transformou em suínos], transforma homens em feras (Sl 49:12), e isso não deveria nos envergonhar? Os pecadores são comparados a raposas (Lucas 13:32), a lobos (Mt 7:15), a jumentos (Jó 11:12) a suínos (2 Pedro 2:22). Um pecador é um porco com a cabeça de um homem. Aquele que já foi um pouco menos do que os anjos em dignidade, agora se tornou como as bestas. A graça nesta vida não elimina totalmente esse temperamento brutal. Agur, aquele homem bom, gritou: “Na verdade eu sou o mais bruto dos homens, nem mesmo tenho o conhecimento de homem” (Pv 30:2). Mas, pecadores comuns são de uma maneira totalmente brutificados; eles não agem racionalmente, mas são levados pela violência de suas luxúrias e paixões. Como isso deve nos envergonhar! E, assim, somos degenerados abaixo de nossa própria espécie?! Nossos pecados tiraram aquele espírito nobre que uma vez tivemos. A coroa caiu da nossa cabeça. A imagem de Deus é desfigurada, a razão é eclipsada, a consciência entorpecida. Temos mais de nós do que do anjo.

7. Vergonha pela Loucura

Em todo pecado há loucura (Jr 4:22). Um homem terá vergonha de sua loucura. Não é ele um tolo que trabalha mais pelo pão que perece do que pelo pão da vida? Não é ele um tolo que por uma luxúria ou um pouco menos que isso perderá o céu, como fez Tibério [O terceiro imperador romano, mencionado em Lucas 3:1. Ele reinou de 14 a 37 d.C. e durante grande parte do seu reinado foi acusado de intoxicação crônica]. Quem por um frasco de bebida perdeu seu reino? Não é ele um tolo que, para agradar seu corpo, ferirá sua alma? Como se alguém fosse deixar o braço ou a cabeça cortada para salvar o tronco! Ele não é um tolo que acreditará em uma tentação antes de crer na promessa? Não é ele um tolo que se importa mais com sua recreação do que com sua salvação? Como isso pode não tornar os homens envergonhados, pensar que eles herdam não a terra, mas a loucura? (Pv 14:18).

8. Vergonha pelo Pecado Cometido na Luz

O que pode nos envergonhar é que os pecados que cometemos são muito piores do que os pecados dos pagãos. Nós agimos na luz. Para nós foram cometidos contra os oráculos de Deus. O pecado cometido por um cristão é pior do que o mesmo pecado cometido por um incrédulo porque o cristão peca contra uma convicção mais clara, que é como o corante da lã ou o peso colocado na balança que o faz pesar mais.

9. Vergonha por Desprezar o Sangue de Cristo

Nossos pecados são piores do que os dos demônios: os anjos perdidos nunca pecaram contra o sangue de Cristo. Cristo não morreu por eles. A medicina de seu mérito nunca teve a intenção de curá-los. Mas nós afrontamos e desacreditamos o sangue de Cristo pela incredulidade. Os demônios nunca pecaram contra a paciência de Deus. Assim que eles apostataram, eles foram condenados. Deus nunca esperou pelos anjos, mas nós gastamos o estoque da paciência de Deus. Ele tem misericórdia da nossa fraqueza, suportada pela nossa fraqueza. Seu Espírito foi repelido, mas ainda nos importunou e não aceitará nenhuma negação. Nossa conduta foi tão provocadora que cansou não só a paciência de um Moisés, mas de todos os anjos. Nós colocamos Deus nisso, e o cansamos de nos arrependermos (Jr 15:6).

Os demônios nunca pecaram contra o exemplo. Eles foram os primeiros que pecaram e foram feitos o primeiro exemplo. Vimos os anjos, aquelas estrelas da manhã, caírem de sua esfera gloriosa; Vimos o mundo antigo afogado, Sodoma queimada, mas ainda nos aventuramos no pecado. Quão desesperado é aquele ladrão que rouba no mesmo lugar em que seu companheiro está preso em correntes. E certamente, se nós pecamos de maneira que ultrapassamos os demônios, isso nos coloca numa situação ainda pior.

Aplicações

Uso 1: A vergonha é um ingrediente do arrependimento? Se sim, até que ponto os que não tem vergonha são arrependidos? Muitos perderam a vergonha: “o injusto não conhece vergonha” (Sf 3:5). É uma grande vergonha não se envergonhar. O Senhor coloca isso como uma marca sobre os judeus: “Porventura envergonham-se de cometer abominação? Pelo contrário, de maneira nenhuma se envergonham, nem tampouco sabem que coisa é envergonhar-se; portanto cairão entre os que caem; no tempo em que eu os visitar, tropeçarão, diz o Senhor” (Jr 6:15). O diabo roubou a vergonha dos homens. Quando um dos perseguidores da época da rainha Maria [a sanguinária] censurou os mártires, ele respondeu: “Não vejo nada do que se envergonhar”. Muitos não se envergonham mais do seu pecado do que o rei Nabucodonosor, quando foi levado aos delírios de sua mente. Quando os homens têm corações de pedra e testas de bronze, é um sinal de que o diabo tomou posse deles. Não há criatura mais capaz de não se envergonhar do que as bestas brutais, elas são capazes de medo e dor, mas não de envergonhar. Você não pode fazer uma fera envergonhar-se, mas o homem deve se envergonhar. Aqueles que não podem corar pelo pecado se parecem muito com os animais. Há alguns tão longe desta sagrada vergonha que eles estão orgulhosos dos seus pecados. Eles estão orgulhosos de seus longos cabelos. Estes são os nazarenos do diabo. “Ou não vos ensina a mesma natureza que é vergonha para o homem ter cabelo crescido?” (1 Co 11:14). Isso confunde a distinção dos sexos. Outros se orgulham de seus pontos obscuros. E se Deus os transformasse em pontos claros? Outros estão tão longe da vergonha do pecado que se gloriam em seus pecados: “cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fp 3:19b). Alguns se envergonham daquilo que é a sua glória; envergonham-se de ser vistos com um bom livro nas mãos. Outros se gloriam naquilo que é sua vergonha: eles vêem o pecado como uma espécie de bravura. O praticante acha que seu discurso é mais gracioso quando é interligado a juramentos. O bêbado conta que é uma glória a sua capacidade de beber (Is 5:22). Mas quando os homens forem lançados numa fornalha ardente, aquecidos sete vezes mais pelo sopro do Todo-Poderoso, então deixem-se gabar do pecado como vêem a causa.

Uso 2: Vamos mostrar nossa penitência por uma modesta vergonha: “Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus; porque as nossas iniquidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa tem crescido até aos céus” (Ed 9:6). “Meu Deus” – havia fé; “estou envergonhado” – houve arrependimento. Os hipócritas confiam firmemente em Deus para ser seu Deus, mas eles não sabem como se envergonhar. Oh, tenhamos santa vergonha pelo pecado. Esteja certo, quanto mais nos envergonharmos do pecado agora, menos nos envergonharemos da vinda de Cristo. Se os pecados dos piedosos forem mencionados no dia do julgamento, não será para envergonhá-los, mas para magnificar as riquezas da graça de Deus ao perdoá-los. De fato, os ímpios ficarão envergonhados no último dia. Eles devem se esgueirar e pendurar suas cabeças, mas os santos serão então como sem mancha (Ef 5:27), então sem vergonha; portanto, eles estão dispostos a levantar as suas cabeças (Lc 21:28).


Citações escriturísticas a partir da Almeida Corrigida Fiel (ACF). 2019 © Traduzido por Amanda Martins; revisado por Elnatan Rodrigues; áudio por Sérgio Cavazonni. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Thomas Watson

Thomas Watson

Thomas Watson (1620-1686) foi um pregador puritano no século XVI. Watson é autor de diversas obras teológicas, destacando-se a obra "A Body of Divine".

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