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A Doutrina do Arrependimento (6)

Nesta série, vamos debruçar em torno da doutrina do arrependimento com Thomas Watson. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno da doutrina do arrependimento é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é sexto artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


(…) O arrependimento é como um remédio espiritual, composto de seis ingredientes especiais:

  1. Visão do pecado (tratado no artigo anterior);
  2. Tristeza pelo pecado (tratado no artigo anterior) ;
  3. Confissão do pecado (tratado no artigo anterior);
  4. Vergonha pelo pecado (tratado no artigo anterior);
  5. Ódio pelo pecado (tratado neste artigo);
  6. Desviando do pecado (próximo artigo).

Se alguma dessas virtudes é deixada de fora, o arrependimento perde sua veracidade.

Ingrediente 5: ódio pelo pecado

O quinto ingrediente do arrependimento é o ódio pelo pecado. Os escolásticos o distinguia em um duplo ódio: o ódio às abominações e o ódio à inimizade.

Em primeiro lugar, há um ódio ou repugnância pelas abominações: “Desgastar-vos-ão por vossas iniquidades” (Ez 36:3). Um verdadeiro penitente é um detestador do pecado. Se um homem detesta aquilo que deixa seu estômago doente, muito mais ele abomina o que torna sua consciência doente. É mais sobre desprezar o pecado do que tão somente deixá-lo. Pode-se deixar o pecado por temor, pois numa tempestade o prato e as joias são atirados ao mar, mas isso é ainda sobre conveniência e não uma detestação. Cristo nunca é amado até que o pecado seja odiado. O céu nunca é desejado até que o pecado seja odiado. Quando a alma vê uma questão de sangue correndo, ele grita: “Senhor, quando serei livre deste corpo de morte? Quando tirarei estas imundas vestes do pecado e colocarei a justa mitra da glória sobre a minha cabeça? Que todo o meu amor se transforme em ódio do pecado!” Assim como vemos em Zacarias 3:4, 5.

Em segundo lugar, há um ódio de inimizade. Não há melhor maneira de descobrir a vida do que os próprios movimentos: Os olhos se movem, o coração pulsa. Então, para descobrir o arrependimento, não há melhor sinal do que uma santa antipatia ao pecado. O arrependimento sadio começa no amor de Deus e termina no ódio do pecado.

Como o verdadeiro ódio pelo pecado pode ser conhecido?

  1. Quando o espírito de um homem é colocado contra o pecado

A língua não só investe contra o pecado, mas o coração o abomina, de modo que, por mais curioso que pareça o pecado, o temos por odioso, pois abominamos a imagem de alguém a quem odiamos mortalmente, mesmo que seja bem desenhada. Suponha que um prato seja bem cozido e o molho bom, mas se um homem tiver uma antipatia contra a carne, ele não o provará. Então deixe o diabo cozinhar e vestir o pecado com prazer e lucro, mas um verdadeiro penitente com uma repugnância santa pelo pecado o odiará e não provará dele.

  1. O verdadeiro ódio ao pecado é universal

O verdadeiro ódio ao pecado é universal de duas maneiras: no que diz respeito às faculdades e ao todo.

Em primeiro lugar, o ódio é universal em relação às faculdades, isto é, há uma aversão pelo pecado não apenas no julgamento, mas na vontade e afeições. Muitos estão convencidos de que o pecado é uma coisa vil e, em seu julgamento, tem uma aversão a ele, mas ainda assim ele o saboreia docemente e tem uma complacência secreta nele. Aqui está um desgosto do pecado no julgamento e um desejo por ele na vontade; enquanto que, no verdadeiro arrependimento, o ódio ao pecado está em todas as faculdades, não apenas na parte intelectual, mas principalmente na vontade: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” (Rm 7:15). Paulo não estava livre do pecado, mas sua vontade era contra.

Em segundo lugar, o ódio é universal em relação ao todo. Aquele que odeia um pecado odeia em totalidade. Aristóteles, disse, o ódio é contra todo o tipo. Aquele que odeia uma serpente odeia todas as serpentes: “Eu odeio todo falso caminho” (Sl 119:104). Os hipócritas vão odiar alguns pecados que estragam seu crédito, mas um verdadeiro convertido odeia todos os pecados, pecados vingativos, compleição de pecados, os próprios sinais de corrupção. Paulo odiava a totalidade do pecado (Rm 7:23).

  1. O verdadeiro ódio contra o pecado é contra todas as formas

Um santo coração detesta o pecado por sua poluição intrínseca. O pecado deixa uma mancha na alma. Uma pessoa regenerada abomina o pecado não apenas pela maldição, mas pelo contágio. Ele odeia essa serpente não apenas por sua picada, mas por seu veneno. Ele odeia o pecado não só porque o leva ao inferno, mas porque é uma afronta ao Deus Santo.

  1. O verdadeiro ódio é irreversível

O Homem que odeia o pecado nunca mais será reconciliado com o pecado. A raiva pode ser reconciliada, mas o ódio não pode. O pecado é aquele mal que nunca mais será tomado em favor. A guerra entre um filho de Deus e o pecado é como a guerra entre esses dois príncipes: “houve guerra entre Roboão e Jeroboão todos os seus dias” (1 Re 14:30).

  1. Onde há um verdadeiro ódio, não apenas nos opomos ao pecado em nós mesmos, mas também no próximo

A igreja em Éfeso não podia suportar aqueles que eram maus (Ap 2:2). Paulo rigidamente censurou Pedro por sua dissimulação, embora ele fosse um apóstolo. Cristo, em um santo desprazer, expulsou os cambistas do templo (Jo 2:5). Ele não queria que no templo houvesse comércio. Neemias repreendeu os nobres por sua usura (Ne 5:7) e sua profanação sabática (Ne 13:17). Aquele que odeia o pecado não suportará a iniquidade de sua família: “O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que fala mentiras não estará firme perante os meus olhos” (Sl 101:7). Que vergonha é quando ministros podem mostrar excelente de espírito em suas paixões pessoais, mas nenhum espírito heroico em suprimir o pecado do povo. Aqueles que não têm antipatia ao pecado são estranhos ao arrependimento. O pecado está neles como veneno numa serpente que, sendo natural para ela, proporciona deleite.

Quão longe estão eles do arrependimento que, em vez de odiar o pecado, amam o pecado! Para o piedoso, o pecado é como um espinho no olho, mas para o ímpio é como uma coroa na cabeça: “Quando tu fazes o mal, então tu te rejubila” (Jr 11:15). Amar o pecado é pior do que cometê-lo. Um homem bom pode correr para uma ação pecaminosa de surpresa, mas amar o pecado é desesperador. O que é que faz um porco, senão amar cair na lama? O que é que faz um demônio, senão amar tudo aquilo o que se opõe a Deus? Amar o pecado mostra que a vontade está no pecado, e quanto mais da vontade existe em um pecado, maior é o pecado, pois está atolado nele. O prazer pelo pecado revela um coração que não foi regenerado: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26).

Quantos há que amam o fruto proibido! Eles amam seus juramentos e adultérios; eles amam o pecado e odeiam a repreensão. Salomão fala de uma geração de homens em que ‘a loucura está no coração deles enquanto eles vivem’ (Ec 9:3). Assim, os homens que amam o pecado abraçam a sua própria morte, praticando a sua condenação e, por isso, “a loucura está em seu coração”.

As Escrituram nos convencem a mostrar nosso arrependimento através de um amargo ódio ao pecado. Há uma antipatia mortal entre o escorpião e o crocodilo; tal deve haver entre o coração do crente e o pecado.

Aplicação

Pergunta: O que há no pecado que pode fazer um cristão odiá-lo?

Resposta: O pecado é a coisa amaldiçoada, o monstro mais disforme. O apóstolo Paulo usa uma palavra muito enfática para expressá-lo: o pecado pode se tornar “excessivamente maligno” (Rm 7:13), ou como é no grego, “hiperbolicamente pecaminoso”. Esse pecado é um dano hiperbólico e merece que o ódio apareça se considerarmos o pecado como um conceito quádruplo:

  1. Observe a origem do pecado, de onde vem. Ele busca a sua identidade no inferno: ‘Aquele que comete pecado é do diabo, porque o diabo peca desde o princípio’ (1 Jo 3:8). O pecado é o trabalho adequado do diabo. Deus é soberano sobre o pecado, é verdade, mas Satanás é a ferramenta ordenada por Deus para agir no próprio pecado. Quão odioso é fazer aquilo que é a obra peculiar do diabo, na verdade, isso não seria torna os homens em próprios diabos?
  2. Olhe para o pecado em sua natureza, e ele parecerá muito odioso. Veja como a Escritura escreveu: Trata-se de um desonra a Deus (Rm 2:23); um desprezo a Deus (1Sm 2:30); uma provocação contra Deus (Ez 16:43); um cansaço do homem contra Deus (Is 7:13); uma traição a Deus, como um marido amoroso que é traído por sua esposa: “Porquanto me quebrantei por causa do seu coração corrompido” (Ez 6:9). O pecado não arrependido é um Cristo crucificado novamente e exposto à vergonha (Hb 6:6), isto é, pecadores impudentes perfuram a Cristo e os Seus santos, pois se Cristo estivesse agora sobre a Terra eles O crucificariam novamente. Veja, portanto, a natureza odiosa do pecado.
  3. Olhe para o pecado fazendo comparações e ele parecerá medonho. Compare o pecado com a aflição e o inferno, e saiba que ele é ainda pior do que ambos. É pior que a aflição: doença, pobreza, morte. Há mais malignidade em uma gota de pecado do que em um mar de aflição, pois o pecado é a causa da aflição, e a causa é mais do que o efeito. A espada da justiça de Deus fica quieta na bainha até que o pecado a retire. A aflição é boa para nós: ‘É bom para mim que eu tenha sido afligido’ (Sl 119:71). A aflição provoca arrependimento (2 Cr 33:12). A víbora, sendo atacada, lança seu veneno; então, a vara de Deus nos atinge, e então cuspimos o veneno do pecado.A aflição apoia-se na graça. O ouro é mais puro e o zimbro mais doce no fogo. A aflição impede a condenação (1 Co 11:32). Assim sendo, Mauritius, o imperador romano (582-602), orou a Deus para puni-lo nesta vida, para que ele não fosse punido no futuro. Assim, a aflição é de muitas maneiras para o nosso bem, mas não há bem no pecado. A aflição de Manassés levou-o à humilhação, mas o pecado de Judas o levou ao desespero. A aflição só atinge o corpo, mas o pecado vai além: envenena o espírito e perturba os afetos. A aflição é apenas corretiva; o pecado é destrutivo. A aflição só pode tirar a vida; o pecado tira a alma (Lc 12:20). Um homem que está aflito pode ter sua consciência aquieta. Quando a arca foi lançada nas ondas, Noé podia cantar na arca. Quando o corpo é afligido e jogado, um cristão pode “cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Ef 5:19). Mas quando um homem comete pecado, a consciência fica aterrorizada.Veja Spira, que foi eminente advogado que viveu perto de Veneza no período da Reforma (século XVI). Ele se converteu do romanismo, acatou a fé protestante, mas depois apostatou e morreu em desespero em 1548. Sua vida foi publicada em Genebra em 1550, João Calvino fez um prefácio. John Bunyan ficou profundamente impressionado com o que aconteceu com Spira. O homem na gaiola de ferro na Casa do Intérprete no Peregrino, sem dúvida, o representa.Ao renunciar a fé, Spira disse que achava que os espíritos condenados não sentiam aqueles tormentos que ele internamente suportava, entretanto na aflição, podemos ter o amor de Deus (Ap 3:19). Se um homem jogar um saco de dinheiro em outro, e ao jogar saco machucar a pessoa que foi seu alvo se machucar um pouco, ela não ficará irada com aquele homem, mas olhará para ele com um carinho e amor. Então, quando Deus nos ferve com aflição, é para nos enriquecer com as graças e conforto de ouro do Seu Espírito. Tudo isso é amor, mas quando cometemos pecado, Deus então nos disciplina. Quando Davi pecou, ele não sentiu nada senão o desprazer de Deus: “Nuvens e escuridão estão ao redor dele” (Sl 97:2). Davi achou isso. Ele não via o arco-íris, o raio de sol e nada além das nuvens e trevas na face de Deus.Que o pecado é pior do que a aflição isso é evidente, pois o maior julgamento que Deus coloca sobre um homem nesta vida é deixá-lo pecar sem controle. Quando o desagrado do Senhor é mais severamente aceso contra uma pessoa, Ele não diz “eu trarei a espada e a peste sobre este homem”, mas sim “vou deixá-lo pecar”: “Portanto eu os entreguei aos desejos dos seus corações” (Sl 81:12). Agora, se a entrega de um homem aos seus pecados (no relato do próprio Deus) é o mal mais terrível, então o pecado é muito pior do que a aflição. E se for assim, então como deve ser odiado por nós!

    Compare o pecado com o inferno, e você verá que o pecado é pior. O tormento tem sua ênfase no inferno, mas nada é tão ruim quanto o pecado. O inferno é da criação de Deus, mas o pecado não é de sua autoria. O pecado é a criatura do diabo. Os tormentos do inferno são um fardo só para o pecador, mas o pecado é um fardo para Deus: “Eis que eu vos apertarei no vosso lugar como se aperta um carro cheio de feixes” (Am 2:13). Nos tormentos do inferno há algo que é bom, a saber, a execução da justiça divina. Há justiça no inferno, mas o pecado é uma das maiores injustiças. O pecado luta contra a glória de Deus, contra Cristo e Sua obra redentora, contra a alma livre e feliz do homem. Julgue então se o pecado não é uma coisa muito odiosa, o que é pior que aflição ou inferno.

  4. Olhe para o pecado na questão e consequência, e ele parecerá odioso. O pecado alcança o corpo. Ele expõe o homem a uma variedade de misérias, antes, durante e depois. Nós chegamos ao mundo com um grito e saímos com um gemido. O pecado fez os Trácios chorarem no aniversário de seus filhos, como Heródoto nos diz, para considerar as calamidades que eles sofreriam no mundo. Pecado é o cavalo de Tróia de onde vem todo um exército de problemas. Eu não preciso nomeá-los porque quase todos os sentem. Enquanto lambemos o mel, somos picados e feridos. O pecado dá uma taça de vinho envenenado em nossos confortos e cava o nosso túmulo (Rm 5:12).O pecado alcança a alma. Pelo pecado nós perdemos a imagem de Deus, onde consistia tanto a nossa santidade como a nossa majestade. Adão em sua glória primitiva era como um arauto que tem seu brasão sobre ele. Todos o reverenciam porque ele carrega o brasão do rei, mas tirando essa vestimenta, ninguém o considera. O pecado fez essa desgraça sobre nós. Ele arrancou a nossa veste de inocência. Mas isso não é tudo. Esta flecha do pecado atacaria ainda mais profundamente. Nos separaria para sempre da bela visão de Deus, em cuja presença está a plenitude da alegria. Se o pecado for tão hiperbolicamente pecaminoso, ele deve nos inchar de ódio e provocar nossa irreversível e implacável indignação a ele. Como o ódio de Tamar por Amon era maior do que o amor com o qual ele a amara (2Sm 13:15), devemos odiar infinitamente mais do que nunca o amamos.

Citações escriturísticas a partir da Almeida Corrigida Fiel (ACF). 2019 © Traduzido por Amanda Martins; revisado por Elnatan Rodrigues; áudio por Sérgio Cavazonni. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Thomas Watson

Thomas Watson

Thomas Watson (1620-1686) foi um pregador puritano no século XVI. Watson é autor de diversas obras teológicas, destacando-se a obra "A Body of Divine".

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