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Trecho: Um Discurso Preliminar (1)(11 min de Leitura)


Nesta série, vamos debruçar em torno da doutrina do arrependimento com Thomas Watson. Trecho a obra “A Doutrina do Arrependimento”, para ter todo o conteúdo completo acesso o E-book clicando aqui.


Leitor cristão,

As duas grandes graças essenciais a um santo nesta vida são a fé e o arrependimento. Estas são as duas asas pelas quais ele voa para o céu. Fé e arrependimento preservam a vida espiritual como o calor e a umidade formam o natural. A graça que vou discutir é o arrependimento.

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Crisóstomo considerava que era o assunto mais adequado para ele pregar diante do imperador Arcádio. Agostinho fez com que os salmos penitenciais fossem escritos diante dele enquanto ele se deitava em sua cama, e ele frequentemente lia-os com lágrimas. O arrependimento nunca está fora de época; é tão essencial como a ferramenta ao artífice ou a arma ao soldado. Se não me engano, pontos práticos são mais necessários nesta época do que controversas e polêmicas.

Eu tinha pensado em ter sufocado essas meditações na minha mesa, mas, concebendo-as como uma grande preocupação nessa conjuntura, revoguei minha primeira resolução e as expus a uma visão crítica.

O arrependimento é purgativo; não temam o funcionamento desta pílula. Golpeie sua alma, disse Crisóstomo, fira ela; [assim], ela escapará da morte por esse golpe. Quão feliz seria se fôssemos mais profundamente afetados pelo pecado, e nossos olhos nadassem em seu orbe. Podemos ver claramente o Espírito de Deus movendo-se nas águas do arrependimento, que, apesar de perturbadas, ainda são puras. Lágrimas úmidas secam o pecado e extinguem a ira de Deus. O arrependimento é o acarinhador da piedade, o procurador da misericórdia. Quanto mais arrependimento e problema de espírito tivermos primeiro em nossa conversão, menos nos sentiremos depois.

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Cristãos, vocês têm um triste ressentimento de outras coisas e não do pecado? As lágrimas mundanas caem na terra, mas as lágrimas piedosas são guardadas em uma garrafa (Sl 56.8). Julgue como não santo o choro supérfluo. Tertuliano pensou que ele nasceu para nenhum outro fim além de se arrepender. Ou o pecado deve se afogar ou a alma queimar. Não diga que o arrependimento é difícil. Coisas que são excelentes merecem trabalho. Um homem num vai cavar ouro no minério, embora isso o faça suar? É melhor ir com dificuldade para o céu do que com facilidade para o inferno. O que os condenados dariam para que eles pudessem ter um arauto enviado a eles de Deus para proclamar misericórdia sobre seu arrependimento? Que suspiros de suspiros e gemidos eles mandariam para o céu? Que inundações de lágrimas seus olhos derramariam? Mas agora é tarde demais. Eles podem manter suas lágrimas para lamentar sua loucura mais cedo do que obter pena. O que nós, portanto, enquanto estamos deste lado da sepultura, façamos nossa paz com Deus! Amanhã pode ser o nosso dia da morte; que este seja o nosso dia de arrependimento. Como devemos imitar os santos de antigamente que amarguraram suas almas e sacrificaram suas concupiscências, e colocaram panos de saco na esperança de vestes brancas. Pedro se batizou com lágrimas; e aquela devota lady Paula (de quem Jerome escreve), como um pássaro do paraíso, lamentou-se e se humilhou na poeira do pecado.

Além dos nossos abortos pessoais, a condição deplorável da terra exige uma contribuição de lágrimas. Não perdemos muito da nossa fama e renome? O tempo foi quando nos sentamos como princesa entre as províncias (Lm 1:1), e Deus fez os feixes de outras nações obedecerem ao nosso feixe (Gn 37:7), mas nossa glória não fugiu como um pássaro (Os 9:11)? E que severas dispensações ainda estão por trás, não podemos dizer. Nossos vapores negros e hediondos subindo, podemos temer que trovões altos sejam seguidos. E tudo isso não nos traz aos nossos sentidos e excita em nós um espírito de humilhação? Vamos dormir no topo do mastro quando os ventos sopram de todos os cantos do céu? Não deixe a menina dos nossos olhos cessar (Lm 2:18)!

Não vou me lançar mais adiante em um discurso preliminar, mas que Deus acrescente uma bênção a este trabalho e assim direcione esta flecha que disparada possa atingir o alvo e que algum pecado possa ser morto, será a ardente oração daquele que é bem-intencionado na felicidade de sua alma.

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Um Discurso Preliminar

[…]

Não contestarei a prioridade se é a fé ou o arrependimento quem vem primeiro. Mas, sem dúvida, o arrependimento mostra-se primeiro na vida de um cristão. No entanto, devo pensar que as sementes da fé são plantadas primeiro no coração. Como quando uma vela acesa é trazida para uma sala escura, a luz se mostra primeiro, mas a vela estava diante da luz, então vemos primeiro os frutos do arrependimento, mas os primórdios da fé estavam lá antes.

Aquilo que me inclina a pensar que a fé é germinada no coração antes do arrependimento é porque o arrependimento, sendo uma graça, deve ser exercido por alguém que já esteja vivo. Agora, como a alma vive, senão pela própria fé? “O justo viverá da sua fé” (Hb 10:38). Portanto, [a fé] deve estar no coração de um penitente, caso contrário, é um arrependimento morto e, portanto, sem valor.

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[Não contesto] se a fé ou o arrependimento vem primeiro, no entanto, tenho certeza de que o arrependimento é de tal importância que não há nenhum homem salvo sem ele. Após o naufrágio de Paulo, ele nadou até a praia em tábuas e pedaços do navio (Atos 27:44). Em Adão, todos nós sofremos naufrágio, e o arrependimento é a única tábua que nos foi deixada, após o naufrágio, para nadarmos até o céu.

É um grande dever dos cristãos solenemente se arrependerem e se voltarem para Deus:

” Arrependei-vos, porque o reino do céu tem-se aproximado.” (Mateus 3:2)

“Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados ” (Atos 3:19)

” Arrepende-te, pois, dessa tua maldade” (Atos 8:22)

Na boca de três testemunhas, esta verdade é confirmada. O arrependimento é a primícia da graça:

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“Não lançar novamente o fundamento do arrependimento” (Hb 6:1). 

A religião¹ que não é construída sobre este fundamento deve ser destruída.

O arrependimento é uma graça exigida pelo evangelho. O primeiro sermão que Cristo pregou, de fato, a primeira palavra de seu sermão foi “arrependei-vos” (Mt 4:17). E sua despedida que ele deixou quando ele ia subir era que “o arrependimento fosse pregado em seu Nome” (Lc 24:47). Todos os apóstolos bateram nesta mesma tecla: “eles saíram e pregaram para que os homens se arrependessem” (Mc 6:12).

Como o arrependimento é realizado? A maneira pela qual o arrependimento é forjado é:

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1. Pela Palavra

“Ora, quando eles ouviram isto, compungiram-se em seu coração ” (Atos 2:37). A palavra pregada é o mecanismo que Deus usa para efetuar o arrependimento. É comparado a um martelo e a um fogo (Jeremias 23:29), aquele quebra e este derrete o coração. Quão grande bênção é ter a palavra, que tal virtude dispensada! E quão dificilmente aqueles que apagam as luzes do céu, encontrarão isto para escapar do inferno!

2. Pelo Espírito

Ministros são apenas os tubos e órgãos. É o Espírito Santo que sopra neles o que torna suas palavras eficazes: ‘Enquanto Pedro ainda falava estas palavras, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra’ (Atos 10:44). O Espírito na palavra ilumina e converte. Quando o Espírito toca o coração, ele se dissolve com lágrimas: ‘Eu derramarei sobre os habitantes de Jerusalém o espírito da graça. . . e olharão para mim a quem traspassaram e se lamentarão’ (Zacarias 12:10). É maravilhoso considerar quais efeitos diferentes a palavra tem sobre os homens. Alguns em um sermão são como Jonas: seu coração é terno e eles caem em lágrimas. Outros não são mais afetados com isso do que um surdo com uma música. Alguns crescem melhor com a palavra, outros pioram. A mesma terra que causa doçura na uva causa amargura no absinto. Qual é a razão pela qual a Palavra funciona de maneira tão diferente? É porque o Espírito de Deus leva a Palavra à consciência de um e não de outro. Um recebeu a unção divina e o outro não (1 João 2:20). Ore para que o orvalho caia como o maná, para que o Espírito possa ir junto com a Palavra. A carruagem das ordenanças não nos levará ao céu a menos que o Espírito de Deus se junte a essa carruagem (Atos 8:29).


NOTAS:
[1] A palavra religião no século XVII tinha um valor piedoso, sendo muito comum de ser encontrado nos escritos dos puritanos. Essa palavra sofreu grandes transformações de significado ao longo do tempo e o valor de sua piedade ficou no passado, hoje a palavra religião tem um significado popular contrário ao da época.

2019 © Traduzido por Elnatan Rodrigues, revisado por Amanda Martins. Áudio por Sérgio Cavazzoni.

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Thomas Watson

Thomas Watson

Thomas Watson (1620-1686) foi um pregador puritano no século XVI. Watson é autor de diversas obras teológicas, destacando-se a obra "A Body of Divine".

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