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Começos Pequenos: Spurgeon e Waterbeach

Antes de ser o pastor da maior igreja de Londres, presidente do Colégio de Pastores, fundador de um orfanato e dezenas de outras instituições de caridade, além de lidar com pessoas de todo o mundo, Charles H. Spurgeon pastoreava uma pequena igreja batista na região de Waterbeach, cerca de cinco milhas fora de Cambridge. Naquela época, poucos poderiam ter previsto o que estava por vir. E, no entanto, Deus usou seu ministério fiel para trazer uma transformação para aquela região durante seu curto período de tempo lá.  

Quando Spurgeon chegou, Waterbeach era notória por sua conexão com a ilicitude, que resultou em uma bebedeira desenfreada.  

Você já andou por uma vila famosa por sua embriaguez e profanidade? Alguma vez viste pobres seres miseráveis, que outrora eram homens, de pé, ou melhor, encostados nos postes da cervejaria ou cambaleando pela rua? Alguma vez olhaste para as casas do povo e contemplou-as como covis de iniquidade em que se achava espantada a tua alma? Você já viu a pobreza, a degradação e a miséria dos habitantes e suspirou?

C. H. Spurgeon, Autobiografia, Vol. 1 (London: Passmore & Alabaster, 1897), 227.

Longe de um cenário campestre idílico, Waterbeach colocou Spurgeon nas trincheiras do ministério pastoral, onde ele viu a realidade do sofrimento e do pecado. Qual foi a abordagem de Spurgeon ao seu ministério inicial?  

PREGANDO O EVANGELHO

Desde o começo, Spurgeon procurou fazer do evangelho o tema central de seu ministério de pregação. Seu primeiro sermão como pastor em Waterbeach foi em Mateus 1:21: “E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. [1] Todo sermão, não importa o texto que ele estivesse pregando, Spurgeon procurava tornar clara a obra salvadora de Cristo ao seu povo, chamando-a ao arrependimento e à fé. Mesmo que muitos em sua congregação se considerassem cristãos, Spurgeon não estava contente com uma fé nominal, mas desejava ver uma conversão genuína nos corações de seu povo. Nem Spurgeon se contentou simplesmente em pregar sermões que satisfizessem seu povo. Ele queria ser usado por Deus sobrenaturalmente na salvação dos pecadores. 

Quando comecei a pregar na pequena capela de Waterbeach, minha primeira preocupação era: Deus salvaria alguma alma através de mim? (…) Depois de ter pregado por algum tempo, pensei: “Esse evangelho me salvou, mas depois alguém o pregou; será que salvará alguém mais agora que eu o prego?”Alguns domingos passavam, e eu costumava dizer aos diáconos: “Você já ouviu falar de alguém que encontrou o Senhor sob meu ministério? Você conhece alguém que foi trazido a Cristo através de minha pregação?” Meu bom e velho amigo e diácono disse: “Tenho certeza de que alguém deve ter recebido o Salvador; Tenho certeza que é sim.” “Oh!”, respondi, “mas quero saber, quero provar que sim.”

C. H. Spurgeon, Autobiografia, Vol. 1 (London: Passmore & Alabaster, 1897), 232.

Não seria até o seu centésimo sermão que Spurgeon recordaria do primeiro convertido em seu ministério. [2] Refletindo sobre este evento, Spurgeon comparou sua alegria a um menino “que ganhou seu primeiro brinquedo” ou a um mergulhador “que esteve nas profundezas do mar e trouxe uma rara pérola”. [3] Spurgeon continuou vendo muitos outrosconvertidos sob sua pregação em Waterbeach. Um dos primeiros biógrafos escreveu: “O pastor não ficou satisfeito em atrair uma multidão. Ele queria conversões e, no ano de seus trabalhos, a igreja cresceu de quarenta para cem.” [3] Mas ele nunca esqueceu a alegria daquele primeiro convertido em sue ministério: “Lembro-me bem dela sendo recebida na igreja, e morrendo, e indo para o céu. Ela foi o primeiro selo para o meu ministério e muito precioso.”

CUIDADO PASTORAL 

O ministério de Spurgeon não se limitou a pregar. Como pastor, ele procurou conhecer seu povo e aconselhá-lo em particular sobre suas lutas. Como a igreja não podia pagar-lhe um salário integral, Spurgeon continuou morando em Cambridge como tutor, e ele faria a caminhada de 5 milhas até Waterbeach nos fins de semana. No entanto, Spurgeon aproveitou essa situação, e faria questão de viajar no sábado e ficar em uma casa diferente a cada fim de semana. “As pessoas eram hospitaleiras e generosas além de suas possibilidades. Para os cinquenta e dois domingos, eu tinha cinquenta e seis casas.” [4]

Durante essas estadias, Spurgeon teve muitas oportunidades de visitar seu povo: jovens mães, fofoqueiros, diáconos, fazendeiros e muitos outros. Nessas conversas, Spurgeon deu ao seu povo um conselho pastoral sobre suas tentações, parentalidade, questões teológicas, trabalho e, o mais importante, sobre sua fé em Cristo. 

Mas isso não foi um conselho genérico. Spurgeon procurou conhecer seu povo e suas lutas particulares. Seu cuidado pastoral pode ser visto em sua descrição de um membro da igreja, a quem ele chama de “Sra. Muito Medo” :

Ela era muito regular em presença na casa de Deus, e era um ouvinte maravilhosamente boa. Ela costumava beber do evangelho; mas, no entanto, ela sempre duvidava, temia e tremia com sua própria condição espiritual. Ela cria em Cristo, eu pensava, por cinquenta anos, mas ela sempre permaneceu naquele estado tímido, medonho e ansioso. Ela era uma alma velha e amável, sempre pronta a ajudar seus vizinhos, ou a falar uma palavra aos não convertidos; ela parecia ter graça suficiente para duas pessoas, mas, na opinião dela, não tinha graça suficiente para uma.

C. H. Spurgeon, Autobiografia, Vol. 1 (London: Passmore & Alabaster, 1897), 239.

Longe de ser um pregador isolado, Spurgeon imaginou a si mesmo como o Sr. Grande Coração no Peregrino, conduzindo gentilmente seu povo em “viagens pessoalmente conduzidas do céu”. [5]

PROMOVENDO A SANTIDADE

Pregar o evangelho sempre significará lidar com o erro. Spurgeon era conhecido em todo o seu ministério por sua disposição em contra-argumentar as controvérsias, e isso começou logo nos primeiros dias. Waterbeach estava localizada em East Anglia, uma região onde os batistas hiper-calvinistas tiveram sua maior influência. Seus ensinamentos frequentemente produziam um antinomianismo que Spurgeon detestava. Ao pregar o evangelho, Spurgeon recusou-se a diminuir a necessidade de arrependimento, mas chamou seu povo à santidade. 

Em meu primeiro pastorado, eu costumava batalhar contra os antinomianos – isto é, as pessoas que criam nisso porque acreditavam serem eleitas, então poderiam viver como quisessem. Espero que essa heresia tenha desaparecido em grande parte, mas foi tristemente prevalente em meus primeiros dias ministeriais… De minha própria alma, eu detesto tudo que leva ao Antinomianismo que conduz as pessoas a afirmarem sobre estarem seguras em Cristo enquanto elas estão vivendo em pecado. Nós não podemos ser salvos por ou para nossas boas obras, nem podemos ser salvos sem boas obras. Cristo nunca salvará algum de Seu povo em seus pecados; Ele salva o seu povo dos seus pecados.

C. H. Spurgeon, Autobiografia, Vol. 1 (London: Passmore & Alabaster, 1897), 258.

Os primeiros sermões de Spurgeon são marcados por repetidos apelos à fé em Cristo e à vida santa, refutando as reivindicações dos antinomianos.

Este chamado à santidade seria realizado não apenas em sua pregação, mas também na disciplina da igreja. Spurgeon apoiou o seu ensino contra o antinomianismo, mantendo cuidadosamente a membresia da igreja para aqueles que deram uma profissão de fé credível. Spurgeon registra pelo menos duas instâncias da disciplina da igreja durante seu tempo em Waterbeach.

Um exemplo foi sobre um jovem que participou de uma festa, no vilarejo, bêbado.

Enquanto eu era pastor em Waterbeach, um certo jovem se juntou à igreja. Pensávamos que ele era um personagem mudado, mas costumava haver no vilarejo, uma vez por ano, uma grande tentação na forma de uma festa; e quando a festa chegou, este tolo estava lá em companhia muito perversa. Ele estava em uma grande sala de uma casa pública, à noite, e quando ouvi o que aconteceu, senti uma intensa gratidão à proprietária daquele lugar. Quando a proprietária chegou e o viu lá, ela disse: “Olá, Jack fulano de tal, você está aqui? Ora, você é um dos muitos de Spurgeon, mas você está aqui; você deveria ter vergonha de si mesmo. Este não é um local adequado para você. Coloque-o para fora ´pela janela, rapazes.” E eles o colocaram para fora pela janela na noite de sexta-feira, e o colocamos para fora pela porta no domingo, pois removemos o nome dele de nosso livro da igreja.

O outro exemplo é a história comovente do Sr. Charles. [6] Ele era “um líder em tudo o que era ruim … o terror do bairro”, mas sob a pregação de Spurgeon, ele se declarou convertido. Ele inicialmente mostrou sinais de uma conversão dramática e trabalhou com alegria pelo evangelho por algum tempo. Mas eventualmente, “o riso ao qual ele foi exposto, as gozações e zombarias de seus antigos companheiros – embora no princípio ele os tenha como um homem – se tornaram demais para ele”, e ele se afastou da fé, para a vergonha e tristeza da igreja. Aqui estava um caso que causou a Spurgeon “muitas lágrimas amargas”. [7]

PERSEVERANÇA

A experiência da mágoa pastoral foi agravada por outros desafios. Como pastor bi-vocacional, Spurgeon começou com um magro salário de 25 libras por ano. Isso significava que ele teria que continuar seu trabalho em Cambridge durante a semana para poder pagar suas despesas. À medida que a igreja crescia, eles podiam aumentar seu salário para 50 libras por ano, o que chegava a cerca de 19 xelins por semana, o que, com a ajuda de seu povo, permitia que ele se concentrasse mais em seu trabalho pastoral.

Eu pagava doze xelins por semana pelos meus aposentos em Cambridge e deixara sete xelins para todas as outras despesas. Mas as pessoas, sempre que chegavam à cidade, traziam batatas, nabos, repolhos, maçãs e às vezes um pouco de carne, e assim eu consegui viver.

H. L. Wayland, Charles H. Spurgeon, 27.

Como Spurgeon cresceu em popularidade e seu ministério se tornou conhecido, ele começou a experimentar a oposição de outros pastores que desprezavam este jovem de 18 anos que pregava. Na reunião anual da União da Escola Dominical de Cambridge, depois que Spurgeon pregou, um ministro comentou publicamente como “era uma pena que os meninos não adotassem a prática escriturística de permanecer em Jericó até que suas barbas fossem cultivadas antes de tentar instruir seus superiores.” [8] Em outra ocasião, ele foi convidado a pregar um sermão de aniversário para um idoso ministro, que nunca o conheceu, mas que tinha ouvido falar de sua crescente popularidade. Ao ver Spurgeon pela primeira vez, ele ficou repugnado e expressou seu lamento por “rapazes indo e vindo pelo país pregando antes que o leite de sua mãe saia de suas bocas”. [9]

Nestas situações, Spurgeon não recuou dessas críticas, mas perseverou em fazer o seu melhor, olhando para Deus, não para o homem. E Deus abençoou sua pregação além do que ele poderia ter imaginado. Refletindo sobre o que Deus realizou durante seus curtos dois anos, escreve Spurgeon,

Em pouco tempo, a pequena capela de palha estava abarrotada, os maiores vagabundos da aldeia choravam lágrimas, e aqueles que haviam sido a maldição da igreja tornaram-se sua bênção. Onde houve assaltos e vilões de todo tipo, em todo o bairro, não havia nenhum, porque os homens que costumavam fazer o mal foram eles mesmos na casa de Deus, regozijando-se ao ouvir falar de Jesus crucificado. Não estou contando uma história exagerada, nem uma coisa que não conheço, pois o meu prazer era trabalhar pelo Senhor naquele vilarejo. Foi uma coisa agradável atravessar aquele lugar, quando a embriaguez quase cessara, quando a devassidão no caso de muitos estava morta, quando homens e mulheres saíam para trabalhar com corações alegres, cantando louvores ao Deus vivo.

C. H. Spurgeon, Autobiografia, Vol. 1 (London: Passmore & Alabaster, 1897), 298.

E foi nessa reunião da União da Escola Dominical de Cambridge que George Gould ouviu Spurgeon pregar e contou a seu amigo Thomas Olney, um diácono na histórica New Park Street Chapel, em Londres.

Para muitos jovens pastores, os primeiros anos do ministério pastoral podem ser assustadores. No entanto, esses destaques do primeiro pastorado de Spurgeon fornecem um guia para as áreas a serem priorizadas nesses primeiros anos. Enquanto o resultado permanece nas mãos de Deus, a vida de Spurgeon nos lembra de não desprezar esses pequenos começos (Zc 4:10), mas sim de buscar um ministério evangélico fiel onde quer que Deus nos tenha colocado.


Notas:
[1] Este sermão pode ser encontrado em The Lost Sermons of CH Spurgeon , vol. 1 (Nashville: B & H Academic, 2016), 231.
[2] Lost Sermons, vol. 1, 116-118. Veja também: https://www.spurgeon.org/resource-library/blog-entries/spurgeons-first-convert-and-the-one-that-got-away
[3] Autobiografia , 232.
[4] Ibid., 28.
[5] CH Spurgeon, Autobiography , vol. 2 (London: Passmore and Alabaster, 1898), 131.
[6] Veja Lost Sermons , vol. 1, 339-341.
[7] Autobiography , 238-239.
[8] Autobiografia , 298
[9] GH Pike, Charles Haddon Spurgeon, Pregador, Autor, Filantropo (Toronto: SR Briggs, 1886), 48.

Texto originalmente disponível em inglês em Histocal Theology, 2019 © Traduzido por Elnatan Rodrigues. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Geoff Chang

Geoff Chang

Geoff Chang é pastor associado da Igreja Batista Hinson em Portland, Oregon (EUA). E frequentemente escreve artigos abordando diversos temas para o blog historicaltheology.org.

Charles Spurgeon

Charles Spurgeon

Charles H. Spurgeon (1834-1892) foi pregador, autor e editor britânico. Spurgeon também foi pastor do Tabernáculo Batista Metropolitano, em Londres. É conhecido como “Príncipe dos Pregadores”.

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