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Deus Predestinou o Estupro de Crianças?(17 min de Leitura)

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Este artigo é uma extensão do primeiro que escrevi com o título homônimo. Meu objetivo nessa extensão é clarificar melhor os conceitos e indicar fontes a fim de ajudar o leitor a aprofundar o tema. Inicialmente, em razão do triste ocorrido nesta última semana, quero deixar registrado meu profundo lamento. A dor na menina em si e no entorno familiar deve ser algo excruciante e indescritível. Entretanto, não há dúvida de que dor maior sofreu aquele que foi assassinado. É, certamente, um contexto tenebroso, digno apenas da atuação pecadora do homem e do ataque maligno de Satanás contra a imagem de Deus no homem, ainda que em ímpios. Não há como transcrever luto, dor, choro, tristeza e lamento por toda essa tragédia!

Todavia, não foi uma tragédia que aconteceu a parte do controle soberano do Senhor. Ele esteve minimamente por trás de cada detalhe, desde o estupro até o assassinato. A grande questão é como!

Conforme eu disse no artigo inicial, Deus não quis que um tio estuprasse sua sobrinha criança e a engravidasse. Mas ele controlou esse evento? Sim! Absolutamente nada acontece sem o devido e necessário controle soberano de Deus.

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Para explicar como isso ocorre sem que a moral de Deus seja maculada, preciso antes dizer de onde falo e qual a minha linha teológica. Eu sigo uma linha calvinista clássica que diz que os decretos de Deus são de dois tipos: ativo e passivo. Quando me refiro à linha calvinista clássico, faço menção aos teólogos da reforma do século XVI, como João Calvino e, principalmente, François Turretini, conhecido como o sistemático da Reforma. Caso o leitor tenha interesse em aprofundar o conhecimento sobre decretos ativo e passivo, indico com louvor o primeiro volume de seu Compêndio de Teologia Apologética, sobretudo o capítulo que verso sobre os decretos divinos.

Quanto aos decretos, no ativo dizemos que Deus atua com bondade, infundindo o bem no homem para que este possa, pela graça comum a todos, agir de forma bondosa. É por isso que dizemos que todo bem feito pelo homem vem de Deus e não dele mesmo.

Já no decreto passivo ou permissivo, Deus atuaria permitindo que a maldade natural do homem ocorra por si mesma. Nesse caso, o homem é livre para agir segundo sua natureza má e atualizar o decreto. José do Egito é um bom exemplo nesse momento. Em toda a sua tragédia, bem conhecida de todos nós, Deus direcionou toda a maldade humana para o bem do seu povo e para a glória do Seu nome. A atuação de Deus seria como um motor que move mecanicamente sem se envolver eticamente. A atuação moral nos acontecimentos maus seria de livre a absoluta responsabilidade do homem. O agir soberano de Deus em nada invalida o agir livre do homem, nem está em contradição como muitos querem afirmar, mas antes o estabelece.[1] Isso porque o homem só pode ser livre para agir, uma vez que há um motor imóvel o movendo. A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo III.I, diz o seguinte:

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Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. [2]

No caso emblemático do estupro e assassinato do bebê na última semana – menina de 10 anos -, Deus não agiu ativamente como se Ele fosse o autor desse mal; mas Deus controlou tudo. Não agiu ativamente porque não é da natureza de Deus infundir maldade no homem ou mesmo empurrá-lo a pecar. Pelo contrário, pela graça comum de Deus, a atuação divina é sempre de frear ou ao menos diminuir a tragédia do pecado. Se, por um milésimo de segundo, Deus tirasse completamente o freio da humanidade, esse tempo seria suficiente para catástrofes e matanças nunca antes vistas na história da humanidade. Portanto, é da natureza de Deus apenas fazer o bem, mas nunca o mal.

Entretanto, não fazer o mal não significa, como muitos falaram nesta última semana, que Deus vira o rosto para essas catástrofes humanas ou fica a parte. Isso é um absurdo! A realidade, dura para incrédulos, mas satisfatória para verdadeiros cristãos, é que Deus esteve por trás de cada detalhe, permitindo tudo isso por razões que ainda não sabemos. Só sabemos que Ele permitiu, uma vez que aconteceu. O Rei Salomão, expressando o controle absoluto de Deus em tudo, disse o seguinte:

A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor.[3]

Biblicamente, ele permitiu essa maldade para algum fim proveitoso à Igreja e à Sua glória, algo que não sabemos agora e dificilmente conseguimos crer nisso dada a carga emocional; mas cremos. Cremos nisso porque do início ao fim da Escritura vemos Deus fazendo tudo para a Sua Glória e para o bem de seu povo. Voltando ao caso de José, a própria “vítima” de tudo aquilo relatou dessa forma:

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E disse José a seus irmãos: Peço-vos, chegai-vos a mim. E chegaram-se; então disse ele: Eu sou José vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos pese aos vossos olhos por me haverdes vendido para cá; porque para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome no meio da terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega. Pelo que Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento. Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito.[4]

Quando a essa mesma passagem da Escritura, assim diz John Piper:

Deus não só controlou as ações desses irmãos para levar José ao Egito, mas Deus controlou a própria fome: ‘fez vir fome sobre a terra e cortou os meios de se obter pão. Adiante deles enviou um homem, José, vendido como escravo. (Salmo 105.16-17)’. Então, devemos tirar de nossas mentes que Deus simplesmente previu que a escassez e a fome viriam por si sós, ou causada por Satanás. Deus criou a escassez e a fome. E Deus preparou o livramento. E fez isso por meio de um pecado espetacular.[5]

Por fim, notem a conclusão do próprio José:

Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida. Agora, pois, não temais; eu vos sustentarei a vós e a vossos filhos. Assim os consolou, e falou segundo o coração deles.[6]

Aqui nós estamos diante de um mesmo ato: a maldade imposta a José. Mas temos dois desígnios: o intento maldoso dos irmãos e Deus, através do mesmo ato mau, planejando o bem. Notem que não vemos o texto dizer que Deus transformou o mal em bem. A ideia é realmente de através de toda maldade imposta a José Deus estar conduzindo a história para o bem de seu povo – conservação em vida diante de fome – e para a glória de Seu nome. E nisso tudo a culpa de cada pecado recaiu unicamente sobre o homem, mas a concretização da preservação do povo de Israel se deveu apenas a misericórdia de Deus.

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Longe esteja de mim relativizar a dor. Nós vivemos num mundo caído. Deus, por sua justiça, a parte de Cristo, já podia ter destruído todos nós. Não há ninguém que escape de fazer maldades; e não há nenhum homem que esteja isento de tamanha atrocidade, como um estupro ou mesmo vender o próprio irmão. Portanto, creio que, nesse momento, discurso emocional culpando a Deus carece de sabedoria bíblica. De Deus recebemos apenas misericórdia sem fim ou juízo justo. Isso indica que não podemos reclamar de nada, mas apenas agradecer. A única indagação digna diante do Senhor é: por que o Senhor ainda nos permite existir, nos abençoando com o ar que respiramos?

Creio que essa é a melhor pergunta que o homem pode fazer. Não é razoável indagar “por que Deus permite o mal?”, mas sim “por que Ele ainda permite que eu viva?” Mas esse tipo de pergunta só pode ser feito se nós tivermos uma real visão de quem nós somos e de quem Deus é. Aquele que vive indagando a Deus sobre as tragédias desse mundo carregam consigo resquícios de merecimento. É como se dissessem: “olha, Deus, eu mereço ser bem tratado; nós não merecemos estupros, mortes, roubos, separações, desemprego, etc. Então cadê o Senhor? Onde o senhor estava no momento em que eu mais precisava?” E creio que se Deus pudesse responder a essa última pergunta, ele diria: “na cruz! No momento em que você mais precisou, eu estive na cruz, sendo esmagado debaixo da ira do meu Pai em seu lugar”.

Com relação a essa menina de 10 anos, creio que um erro não pode ser corrigido com outro. Um assassinato de um bebê não é a forma digna ou sequer aceitável de corrigir um estupro. Na Bíblia, a pena de morte era direcionada ao estuprador, mas hoje, infelizmente, queremos impor essa pena a um bebê na barriga. Evidentemente que reconhecemos a dor de uma menina de 10 anos, mas mais ainda de um bebê de quase seis meses. Entre um estupro e um assassinato, ambos são crimes, mas um é mais hediondo que outro. Ninguém duvida que assassinar seja pior que estuprar!

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Uma vez que o assassinato já foi feito, nos resta agora orar por essa menina de apenas 10 ano, suplicando que Deus a ajude e se compadeça dos familiares e de todos os envolvidos nesse caso. Sendo Deus longânimo em misericórdia e justo no julgar, compete a nós orar pela misericórdia, mas aguardar sempre a justiça divina se concretizar.

Para além da tristeza sobre todo o ocorrido, outra situação muito entristeceu-me: a quantidade de pessoas que dizem professar a fé cristã, mas que se mostraram favoráveis ao aborto, não apenas nesse caso difícil, mas em qualquer caso em absoluto. Dos ímpios nós esperamos tudo: aborto, assassinatos, roubos, mentiras, etc. Mas quando encontramos isso em professos cristãos, confesso que a tristeza é redobrada. É triste ter que repetir o óbvio, mas não dá para ser cristãos e abortista ao mesmo tempo:

Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.[7]

E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.[8]

Assim diz o Senhor que te criou e te formou desde o ventre, e que te ajudará[9]

Foram as tuas mãos que me formaram e me fizeram. Irás agora voltar-te e destruir-me? Lembra-te de que me moldaste como o barro; e agora me farás voltar ao pó? Acaso não me despejaste como leite e não me coalhaste como queijo? Não me vestiste de pele e carne e não me juntaste com ossos e tendões? Deste-me vida e foste bondoso para comigo e na tua providência cuidaste do meu espírito.[10]

No fim das contas, ou abraçamos as ideologias nefastas e satânicas desse mundo ou abraçamos a Santa Escritura com todas as consequências previstas por nosso Salvador. Minha recomendação, em oração, é para que você, caro leitor, não tema ser fiel a Deus diante de um mundo cada vez mais hostil. Vale a pena permanecer íntegro, mesmo diante de tanta pressão. Que Deus te ajude!

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Finalmente, desejo encerrar esse texto com um alerta de John Piper exposto no livro já citado aqui:

Os cristãos do Ocidente estão debilitados por cosmovisões fracas. E cosmovisões fracas produzem cristãos fracos […] O que está faltando é a Bíblia. E quero dizer a Bíblia por completo, com seu sangue, vísceras, pecados e horrores – e tudo isso sob a pesada mão de Deus. A mão cujos dedos com um estalo trazem as estrelas à existência. A mão que dá vida e que a retira. A mão que tudo dirige. Tudo. O que precisamos é saber as grandes coisas sobre Deus. Conhecer grandes coisas sobre Deus irá nos ajudar a estar prontos a não sucumbir em conflitos cataclísmicos e catástrofes pessoais. [11]

O que deixa um cristão forte nas tragédias é teologia pesada; é teologia sólida; é teologia profunda; ou seja, é toda a Escritura Sagrada, sem acréscimo e sem decréscimo. Talvez, uma das razões para essa geração tão fragilizada, tão sensível e tão suscetível à depressão seja por conta de púlpitos medrosos e seletivos. Medrosos no sentido de temer falar as verdades mais dolorosas à comunidade; e seletivos por negar pregar as passagens mais difíceis. A nossa única saída é voltar a pregar todo o conselho de Deus. Desejo, com esse texto, caro leitor, te incentivar a se aprofundar nas Escrituras e a crer nessas verdades duras, mas fortalecedoras nos piores momentos de nossa caminhada cristã. Uma das fortalezas dos puritanos nos momentos de tragédias era crer que em tudo estava a mão de nosso Pai: “É a mão de meu Pai!”. Então, querido irmão, creia que a mão de nosso Pai esteve e sempre estará em tudo, visando o nosso bem. Creia nisso de todo o seu coração e sentirás aquela tal paz que excede todo entendimento.[12]

 Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Romanos 8:28 (NVI)



[1] Para melhor compreender os conceitos e a ideia de que soberania e liberdade não são contraditórias, indico o meu livro “O Cálice da Ira sem Mistura”: < http://www.portodelenha.com.br/produto/464252/o-calice-da-ira-sem-mistura-do-inferno-ao-lago-de-fogo-e-enxofre>
[2] Disponível em <http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm> Acesso em 21/08/2020
[3] Provérbios 16.33
[4] Gênesis 45:4-8
[5] PIPER, John. Pecados Espetaculares e seu propósito global na glória de Cristo. São Paula: Cultura Cristã, 2015, p. 69.
[6] Gênesis 50.20-21
[7] Salmos 139.13-16
[8] Lucas 1:41
[9] Isaías 44:2a
[10] Jó 10.8-12
[11] PIPER. Op. cit., p. 13
[12] Filipenses 4.7

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2020 © Rodrigo Caeté. Para o uso correto deste recurso visite a nossa Página de Permissões.

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Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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