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Neopentecostalismo e a Blasfêmia contra o Espírito Santo(8 min de Leitura)

Eu fico muito feliz em constatar o quanto a teologia reformada tem crescido no Brasil, sobretudo no meio mais jovem do povo cristão. Entretanto, continua ainda sendo verdade que o evangelicalismo brasileiro tem sido conhecido pelo mundo ímpio através da frente pentecostal e neopentecostal, seja por meio de escândalos financeiros e morais ou mesmo por meio das muitas birutices já conhecidas de todos nós, como línguas esquisitas e sapateio no teto. Como não desejo cometer o mesmo erro de generalização cometido por muitos ímpios ao nos julgar com base nos erros da linha pentecostal e neopentecostal, adianto que acredito piamente na salvação de muitos irmãos por lá. Por isso minha crítica ao longo desse texto não se estende a todos indistintamente, mas sim a grande maioria.

Uma grande parcela da cristandade ainda acredita que blasfemar contra o Espírito Santo seja proferir palavras agressivas ou xingamentos direcionados a Deus. A consequências são muitos cristãos genuínos depressivos e preocupados com sua alma porque em algum momento no passado proferiram palavras duras contra Deus. De início, desejo consolar essas pessoas ao afirmar que esse tipo de preocupação é a maior evidência de que nunca chegaram de fato a blasfemar contra Deus. Como veremos abaixo, esse tipo de blasfêmia imperdoável nada tem a ver, à princípio, com palavras que saem da nossa boca, embora isso seja uma das evidências, mas tem a ver mais com uma vida inteira marcada pela rebelião contra Deus a tal ponto de a pessoa atribuir a Satanás qualquer bem feito ao homem. Ou seja, a blasfêmia em si é o último estágio da rebelião humana. Eis o texto em questão:

Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. [1]

Jesus é claro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados. Pecados como estupro, assassinato, adultério, prostituição, palavras ofensinhas direcionadas a Deus, etc. Todavia, não a blasfêmia contra o Espírito Santo. O que seria ela e qual a relação dela com o movimento neopentecostal?

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Conforme o contexto, Mateus 12.22-30, blasfemar seria atribuir a Satanás aquilo que claramente é obra de Deus. No excerto citado, Jesus, ao acabar de curar um endemoninhado, cego e mudo, é acusado pelos fariseus de ter feito esse milagre pelo “poder de Belzebu, o maioral dos demônios”.[2] Isso posto, Jesus declarou que tudo pode ser perdoado ao homens, menos esse tipo de acusação pública e consciente. O ponto aqui não é uma simples acusação como um ato falho ou um equívoco temporário, mas uma manifesta rebelião e ódio contra Deus que culmina no último estágio de blasfêmia contra o Espírito Santo ao negar qualquer obra de Deus milagrosa e boa neste mundo. Isso seria praticamente uma adoração a Satanás, pois seria atribuir a ele todo tipo de benfeitoria. Cremos que só chega nesse estágio aquele tipo de pessoa descrita em Romanos 1 que, de tanto se rebelar contra Deus, o próprio Deus os entrega a si mesmo, como a principal evidência também de não eleição.

A relação com o movimento neopentecostal, entretanto, é inversa, mas por demais perigosa. Isso porque, se antigamente, na época de Jesus, muitos pastores e líderes religiosos da época atribuíam a Satanás aquilo que verdadeiramente era obra do Espírito Santo, hoje o que se tem visto no movimento carismático moderno é o inverso: tem-se atribuído ao Espírito aquilo que é obra de Satanás. Essa é uma clara inversão de atribuição. Eu não digo que o que o movimento neopentecostal tem feito chega a ser uma blasfêmia contra o Espírito Santo, pois isso seria uma aplicação contrária ao texto bíblico, mas digo que possa ser sim uma das etapas atuais até se chegar lá.

Creio que nada é mais traumático para uma igreja do que ter em sua liderança Satanás travestido de pastores. Tristemente afirmo que existem também muitos demônios dançando e rodopiando à vontade nesses ditos templos santos. Essa é uma estratégia antiga do inimigo: cirandar no meio cristão disfarçado de anjo de luz. O grande problema disso tudo é quando a esmagadora maioria dos cristãos acredita piamente que esses grandes movimentos neopentecostais são fruto da ação do bendito Espírito Santo.

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Infelizmente o que esse ser maligno mais tem feito para tentar destruir a igreja é adentrar em muitos templos e causar estragos inimagináveis, pois aparentemente a igreja vai bem, obrigado, e cheia do poder de Deus. Para muitos neopentecostais, uma igreja avivada e cheia do poder de Deus é uma igreja que dá liberdade à ação do Espirito Santo. A respeito dEle, dizem as linhas carismáticas que o mesmo é responsável por fazer a pessoa rodopiar, pular, cair, fazer gemidos estranhos, ficar inconsciente, gritar, falar coisas ininteligíveis, e tantas outras sandices.

É óbvio que, como eu disse no início, toda generalização é imprecisa. Acredito em sérias igrejas pentecostais que assim o são em virtude de uma personalidade mais extrovertida da comunidade. Deus pode ser adorado por um tímido de uma forma diferente de como um extrovertido adora. Vemos, por exemplo, Maria e Izabel reagindo distintamente diante da presença de Jesus.[3]

O ponto de reflexão aqui é a atribuição a Deus daquilo que aparentemente é obra de Satanás. Esse ser maligno não pode mais agir sem ser acusado; não pode mais ficar ileso de críticas; não pode mais passar despercebido; ele é o autor de toda essa birutice neopentecostal assustadora. Portanto, já passou da hora de expulsamos do nosso arraial aquele que nunca deveria ter entrado.

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Não custa repetir o ponto nevrálgico da tragédia invertida: antes atribuíamos a Satanás a verdadeira obra de Deus; hoje atribuímos a Deus a falsa obra de Satanás. Pense nisso! Reflita sobre o que temos visto que tem causado em nós repulsa. Muita coisa pode ser sim preconceito de cristão mais tradicional e mais, por assim dizer, engessado, mas a maioria, assim creio, talvez seja sim a invasão maligna em nosso arraial. Rejeitemos, portanto, irmãos, esse diagnóstico negativo, vindo dos ímpios, como sendo nosso; e atribuamos a obra devida a cada qual: a obra de Deus a Deus e a de Satanás a Satanás. Longe de nós a Blasfêmia contra o Espírito Santo, e longe de nós o seu inverso: a atribuição a Deus daquilo que é obra de Satanás.

Deus te abençoe!


[1] Mateus 12:31
[2] Mateus 12.24
[3] Em Lucas 1.42, o texto diz que Isabel “exclamou em alta voz”, enquanto o verso 46 afirma que “Maria disse”. Exclamar em alta voz sugere que a adoração de Isabel foi de uma forma visivelmente mais extrovertida, o que não significa que a adoração foi melhor. Deus é adorado da mesma forma por um ou por outro, pois ele olha o coração e não o exterior, à princípio.

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Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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