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O Acaso Soberano(16 min de Leitura)

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Há poucos anos, o cantor gospel Kleber Lucas causou uma grande polêmica nas redes em razão de ter cantado a música Epitáfio, da banda “secular” Titãs. Longe de adentrar à sala dessa polêmica, meu desejo é desconstruir a ideia da existência do acaso em nosso meio. A grande parte que criticou o cantor por ter cantado essa música talvez creia em alguma espécie de acaso, ainda que inconscientemente. Basta perguntar a essas pessoas como elas explicam as grandes tragédias da humanidade; como elas explicam uma “bala perdida” achar um pastor que acabara de sair do culto; como ela explica um estupro de um bebê; como ela explica um pai queimar seus filhos e se matar. Será que responder como sendo uma “fatalidade” responde alguma coisa? Culpar a Deus responde? Atribuir tudo isso à maldade humana responde? Notem como não temos uma estrutura teológica e emocional para responder a maior parte dessas perguntas. Mas o grande problema é quando deixamos o emocional tomar a dianteira em detrimento do teológico.

O meu ponto com esse texto é mostrar que não existe acaso. Embora você como cristão até saiba intelectualmente que não exista mesmo, o meu objetivo é cercar suas emoções e indagá-las para ver se você consegue atribuir todo e qualquer evento Àquele que realmente tudo controla.

Não dizemos que Deus seja culpado de todo pecado; dizemos que Ele seja a causa de tudo, sem se envolver moralmente com o pecado. Ele é a causa primária, mas os homens maus, a causa secundária. É daqui que a maldade impera, mas não sem antes a moção e a permissão da causa primeira. É nesse sentido que não existe acaso ou sorte, uma vez que Deus está absolutamente em cada ação e detalhe.

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Portanto, mais do que confirmar a responsabilidade humana por meio de sua liberdade segundo sua natureza má, este texto tem o objetivo de exaltar a soberania de Deus em todas as coisas. Creio que a melhor forma de encontrarmos descanso neste mundo mau e cruel é crendo que Deus está exatamente por trás de todos os eventos, sem exceção, sendo eles maus ou bons. A dificuldade de muitos, contudo, é acreditar que Deus tem algo a ver com as tragédias da humanidade; pensam que todo mal circunstancial ou é fruto da obra de Satanás, ou da responsabilidade humana ou mesmo do acaso, mas nunca de Deus. Que o homem é totalmente responsável pela maldade que pratica não resta dúvida; que Satanás também está por trás de algumas situações trágicas também; mas e o ACASO? Será mesmo que o acaso vai nos proteger enquanto andarmos distraídos?

Quando digo que o homem e Satanás são responsáveis pelos seus atos maus praticados, estou falando sempre no nível secundário. Isso porque, no nível último de toda ação, não existe nada que não venha de Deus. Um caso bem curioso na Bíblia é o levantamento do censo de Israel por parte de Davi. O texto de 2 Samuel 24 aponta que o SENHOR “incitou” a Davi para que este fizesse o censo. O motivo era porque Deus, por assim dizer, estava irado com os israelitas e intentava puni-los. O ponto interessante é que a passagem paralela a esta – 1 Crônicas 21 – salienta que o sujeito da incitação a Davi é Satanás e não Deus. Enquanto alguns enxergam uma aparente contradição nestas duas passagens (foi Deus ou Satanás quem incitou a Davi?), uma correta interpretação seria dizer que Satanás foi o agente secundário e Deus o agente primário. Dito de outra forma, Deus usou Satanás para cumprir o Seu propósito, e este, Satanás, incitou ao Rei Davi a pecar contra Deus levantando o censo. No fim das contas, o texto conclui apontando que a atitude de Davi desagradou a Deus, fazendo com que o SENHOR agisse com justiça e punisse o Rei Davi.

Nessa análise anterior, o que podemos concluir é que, embora Deus seja o causador absoluto de todas as coisas, seja usando ou não Satanás, e ainda de uma forma que a nossa mente finita não consegue compreender completamente, os seres secundários são totalmente responsáveis e culpados pelo mal que praticam. O ponto é que a incitação de Deus não anula a responsabilidade humana. Deus fez tudo o que fez sem ser culpado pelo pecado, e objetivando cuidar de seu povo.

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A Confissão de Fé de Westminster sempre nos auxilia no que tange a esse tópico:

I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.[1]

II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.

At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.[1]

Outro exemplo clássico desse mesmo ponto é o texto do espinho na carne do apóstolo Paulo. Enquanto muitos dedicam tempo não muito frutuoso tentando saber o que era esse tal espinho, a nossa dedicação aqui deve se concentrar nos agentes e no porquê desse curioso espinho.

O contexto de 2ª Coríntios 12 nos diz que Paulo teve a maravilhosa oportunidade de ir ao “terceiro céu” (se no corpo ou fora do corpo nem ele sabe nem eu sei). Após essa experiência única do apóstolo, ele nos diz no verso 7 o que o esperava aqui na terra:

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E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que eu não me exalte.

2 Coríntios 12:7

Comecemos pelo objetivo final, que era a não exaltação do apóstolo Paulo. Ora, sabemos que o desejo por humildade só vem de Deus e não de Satanás. Então, num primeiro momento podemos dizer que esse tal espinho foi uma bênção de Deus para ajudar Paulo no caminho da santificação, e não uma maldição como alguns podem presumir, nem mesmo uma vitória de Satanás, pois não era do interesse dele que Paulo fosse humilde.

Todavia o texto diz que o agente mediador desse acontecimento foi Satanás. O que temos aqui é uma releitura do recenseamento de Israel: Deus sendo o agente primário que preza pela santificação de Paulo – senão ele poderia se orgulhar de ter ido ao terceiro céu -, mas que faz isso por meio de seus servos e agentes secundários, neste caso novamente Satanás.

O que não podemos deixar escapar é que Satanás sempre será culpado e punido pelos seus erros, mesmo que ele muitas vezes sirva aos propósitos soberanos do SENHOR. Por assim dizer, Satanás é ao mesmo tempo o alvo da eterna ira de Deus, bem como Seu servo para cumprir Seus propósitos.

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Finalmente, existe outra passagem um tanto inusitada e embaraçosa na Bíblia. Quando o rei de Israel, Acabe, foi com o de Judá, Josafá, para uma determinada guerra, o primeiro rei, de forma medrosa e covarde, disse para o segundo:

Eu me disfarçarei e entrarei na peleja; tu, porém, traja as tuas vestes. Disfarçou-se, pois, o rei de Israel e entrou na peleja.[2]

O rei da Síria, que era o povo atacado na peleja, estava mais disposto a tirar a vida de Acabe que a de Josafá, e deu ordens para que procurassem pelo rei de Israel. Ocorreu que, em certo momento da batalha, encontraram Josafá e acharam que ele era Acabe, só não matando-o por engano porque Josafá deu em berro, provavelmente dizendo que não era ele a pessoa procurada. Deixarei que a Escritura narre o fatídico e embaraçoso desfecho:

Vendo os capitães dos carros que não era o rei de Israel, deixaram de o perseguir. Então, um homem entesou o arco e, atirando ao acaso, feriu o rei de Israel por entre as juntas da sua armadura…[3]

O texto é claro e pode ser parafraseado da seguinte forma: os soldados sírios tinham desistido de encontrar Acabe, quando um deles resolveu pegar seu arco e “atirar” ao ACASO. Durante o percurso da flecha, o ACASO fez com que a mesma alcançasse exatamente no único alvo que poderia matar o rei de Israel, “por entre as juntas da armadura”. Creio que nunca veremos um acaso mais soberano que este!

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Ora, temos um caso de acaso nas Escrituras? Evidente que sim! Mas não apenas esse como muitos outros não descritos de forma aparentemente tão aleatória. A grande questão é que esse acaso não pode ser visto como uma união de elementos aleatórios que cooperam para um determinado desfecho sem a ação de Deus, mas como um meio pelo qual Deus se utiliza das contingências da vida para cumprir os seus propósitos. Se atentarmos ao contexto dessa passagem, veremos que tanto Elias quando Micaías tinham profetizado a respeito do trágico fim do rei de Israel. Isso significa que não haveria outra possibilidade no futuro de acontecer outra coisa a não ser o que aconteceu. O ponto é que o que chamamos de acaso a Escritura chama de Soberania. Não podemos nunca perder de vista, conforme vimos no início, que é Deus quem controla todas as coisas e faz com que todas elas ocorram conforme seu eterno desígnio.

Talvez o ponto mais difícil de toda essa questão se encontre justamente nas aplicações que podemos tirar desses textos. Vimos neste último exemplo que um “tiro” dado ao acaso foi minunciosamente controlado por Deus para acertar quem Deus queria. E vimos também que o nome desse acaso é Soberania. O que fazemos então com todas as tragédias da humanidade que chamamos de acaso e fatalidades por serem tão contrárias a um Deus que é totalmente bom?

Eu sei que existem casos delicados e humanos demais para teólogos arbitrarem, uma vez que os homens de nossa época serem sempre mais propensos a sentimentalizar tragédias. Aparentemente é mais coerente dizer que um lindo bebê de um ano ser morto por uma bala perdida (ou uma flechada) nada tem a ver com Deus. Creio que se isso ocorresse com um filho meu eu ficaria devastado; a dor seria absoluta; todavia, isso não poderia tirar de mim a noção de que a mão de meu Pai esteve nesse evento, de forma permissiva. Eu sei através de duras experiências que não existe nada mais humano e propulsor de paz e verdadeiro descanso do que saber que Deus nunca perdeu o controle, mas é o agente primário de todas as coisas; mais que isso: que Ele sempre esteve por trás de cada tragédia objetivando algum fim que glorificasse o nome dEle e trouxesse bênção para seu povo.[4]  

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Poderíamos, então, dizer que:

1)     Uma bala perdida encontrando um pastor ou um bebê…

2)     Uma avalanche que matou centenas de famílias…

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3)     Um avião que cai matando muitas pessoas…

4)     Uma morte de um filho ou de um ente querido…

5)     Uma doença grave…

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6)     Um gravíssimo acidente…

7)     Uma traição…

8)     Um ataque terrorista…

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9)     Um estupro coletivo de adultos ou de crianças…

10) Abortos…

10)  Ou qualquer tragédia da humanidade…

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… tem Deus como agente primário, e os agentes secundários como responsáveis! A Escritura não nos manda entender claramente isso, mas nos convida a descansar no sábio controle de Deus. Isso é amor, pois temos a ciência de que Aquele que nos ama ainda cuida de nós com amor indizível, a ponto de fazer com que todas as circunstâncias cooperem para o nosso bem. E crer nisso, queridos irmãos, me traz paz.

Ao caminhar para o encerramento desse texto, ponho um profundo desejo para essa e a próxima geração: que abracem com todo vigor a doutrina da soberania de Deus; que se deleitem em Deus em tudo que Ele fizer; que aprendam a enxergar a boa mão de Deus na noite escura da alma e no vale da sombra da morte. Ele já disse que sempre estaria por ali nos guiando. Precisamos, irmãos, trazer Deus de volta ao cenário. Não podemos mais ter uma visão baixa ou distorcida do SENHOR. Ele sempre foi e sempre será soberano. Por que ver Deus dessa forma é importante? Porque isso nos faz encarar essa vida com outras lentes. Creio que inúmeros suicídios, o alto índice de depressão ou qualquer outra doença mental têm como pano de fundo uma visão baixa de Deus em relação às tragédias da humanidade. Se entendêssemos que Deus faz todas as coisas visando o bem de seu povo, teríamos uma vida de muito mais paz que preocupações e ansiedades. Anseio por uma geração que tenha uma visão exaltada de Deus em todas as ocasiões. Desejo que enxerguemos a Deus com as lentes da soberania e não mais com as lentes do acaso e da fatalidade.

Que Deus te ajude e te abençoe, caro irmão, na compreensão desse texto, e que você encontre a verdadeira paz descansando na soberania dEle.

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[1] Cap. III.I-II. Leia a Confissão de Westminster no Reformai.
[2] I Reis 22.30
[3] I Reis 22.33-34
[4] Romanos 9:28


2020 © Rodrigo Caeté. Para o uso correto deste recurso visite a nossa Página de Permissões.

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Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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