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O Mito de que Calvinismo Inibe Missões(18 min de Leitura)

Não é de hoje que circula por aí o mito de que o calvinismo é contrário ao evangelismo. Afirma-se isso em virtude de haver no calvinismo a crença de que Deus já escolheu de antemão os que haviam de ser salvos.[1] Diante disso, meu objetivo com esse texto é desmistificar essa ideia e mostrar que a Santa Palavra nos ensina a doutrina da soberania de Deus na salvação ao mesmo tempo em que incentiva a propagação do Evangelho, sem isso ser um problema para os escritos inspirados. Ademais, veremos também que, ao longo da história de missões, foram os calvinistas os que mais evangelizaram e cumpriram o ide em lugares antes não devastados.

A princípio, devemos reafirmar aquilo que o calvinismo aponta: Deus, por sua livre vontade, decidiu escolher dentre os mortos e rebeldes aqueles a quem Ele mostraria misericórdia. Deus não precisava fazer isso; não era obrigado a salvar rebeldes; e nem devia nada a ninguém. Mas mesmo assim, para a glória de sua graça, manifestou seu amor salvífico aos que antes eram alvos da justa ira.[2] E os condenados? Estes têm razão em reclamar por não serem salvos? Na ótica da justiça humana, todos concordam que crimes devem ser punidos. A forma é discutível, mas não a justiça. Ora, considerando que um único pecado é infinitamente pior que qualquer crime praticado contra o homem, uma vez que é cometido contra Deus, não parece sensato questioná-lO ao condenar aqueles que não creem. Ademais, sendo o pecado cometido contra um ser de uma santidade infinita, parece por demais razoável que a condenação seja proporcional à dignidade da pessoa ofendida. Portanto, nada menos que uma punição eterna.

Isso posto, permanece a indagação: “ora, se Deus já escolheu os que deveriam crer, porque devo evangelizar a todos?”

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Inicialmente, pode-se dizer que a premissa dessa indagação é falsa. A evangelização não pressupõe não eleição. Pelo contrário, já que é a eleição que nos motiva a evangelizar. Isso porque se a Bíblia descreve o homem após a queda como morto espiritual, incapaz de se salvar por sua obras, caso não houvesse a eleição graciosa, eu não veria nenhum motivo para sair por aí propagando as Boas Novas a mortos, a não ser que essa Palavra garantisse antes a regeneração desses. Portanto, pregar sem a certeza da Doutrina da Eleição seria uma obra vã e sem resultados salvíficos.

Sendo, portanto, a doutrina calvinista da eleição a maior incentivadora das missões, vejamos se isso se coaduna com a prática:

Segundo Joel Beeke, João Calvino enviou 142 missionários da cidade de Genebra que tinha 20 mil habitantes. Isso dá em torno de 1 missionário para cada 141 habitantes.[3] Além disso, segundo Marcos Granconato,

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“em Genebra, cidade onde atuou como pastor e estadista, foi criado, após 1545, o Fundo Francês, uma instituição que tinha como propósito central dar apoio material aos franceses pobres ali refugiados por causa da perseguição em sua terra natal. Calvino contribuía prodigamente para esse fundo e é provável que tenha sido um dos seus criadores. Ainda que os objetivos principais da instituição fossem no campo humanitário, é sabido que o Fundo Francês era também usado para fins missionários, sustentando pastores em Genebra que deveriam ser enviados à França.” [4]

Ademais, no que concerne à produção de literatura, bem como sua distribuição para evangelização, assim ainda contribui Granconato:

“Além disso, sendo impossível um controle absoluto sobre o comércio de literatura por parte das autoridades de Paris, os livros proibidos procedentes de Genebra eram vendidos no mercado negro. O resultado era que as conversões à fé evangélica não paravam de ocorrer na França. Os registros históricos apontam que, em 1562, dois anos antes de Calvino morrer, existiam pelo menos 1.250 congregações calvinistas naquele país, abrangendo mais de 2 milhões de membros! Foi, certamente, por causa desses extraordinários avanços que a Venerável Companhia de Pastores, outra instituição da Genebra de Calvino, enviou 151 missionários à França só no ano de 1561! (para mais detalhes, veja-se McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 203-222).” [5]

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Soma-se a isso o conhecido fato de os primeiros protestantes chegarem ao Brasil por intermédio de João Calvino. Eles vieram, a pedido de Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), a fim de evangelizar os indígenas aqui presentes, bem como os colonizadores franceses do Rio de Janeiro. Todavia, em virtude de desentendimentos doutrinários com Villegaignon, os calvinistas foram expulsos da pequena ilha onde estavam instalados. Disso resultou a conhecida Confissão de Fé da Guanabara (1558) e a morte de alguns calvinistas. Um artigo que aprofunda em detalhes esse triste evento tem o título de “A “França Antártica”: primeira presença calvinista no Brasil”[6], de Alderi Sousa de Matos.

Dando um salto na história, são muitos os exemplos de calvinistas que, motivados pelo amor a Deus e as missões, abriram caminhos nunca antes penetrados para que o Evangelho alcançasse os eleitos:

John Eliot talvez tenha sido o primeiro missionário aos índios norteamericanos no século XVII. David Brainerd, que também foi um missionários aos indígenas americanos no século XVIII. Diz-se dele que, através de seu diário “Um Relato da Vida do Falecido Reverendo David Brainerd”, “ele tenha sido responsável pelo envio de mais missionários para os campos de trabalho do que qualquer outra pessoa na história da igreja.”[7] Outro grande missionário aos índios, além de grande pregador e escritor foi Jonathan Edwards. Na mesma esteira de evangelização, encontramos o grande arauto George Whitfield, que “atravessou o Oceano Atlântico treze vezes, e estudiosos estimam que ele tenha pregado mais de 18.000 sermões.”[8] De fato a lista seria extensa, mas mencionemos apenas os nomes de Theodorus Frelinghuysen, William Tennent, Samuel Davies, William Carey, Robert Moffat, David Livingstone, Robert Morrison, Peter Parker, Adoniram Judson, Charles Simeon, Henry Martyn, Samuel Zwemer, John Stott, Francis Schaeffer, D. James Kennedy, John Piper, dentre outros.[9] A pergunta que deve ser feita é: será que o calvinismo é contrário realmente ao evangelismo? Ao menos vimos que na prática, através da história da igreja, desde a sistematização do calvinismo, os maiores missionários e evangelistas eram todos calvinistas.

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Mas e a Bíblia? O que ela tem a nos dizer sobre eleição e evangelismo?

Pela Sagrada Escritura, entendemos que Aquele que determinou o fim também determinou os meios. Isso indica que dentro do escopo do decreto da eleição está o meio para tal, que é a proclamação do Evangelho.[10] Quanto a isso, assim diz Ernest Reisinger:

“Deus escolheu tanto os meios como os recipientes da salvação. A sua Palavra nos diz que Ele decidiu salvar seu próprio povo por intermédio da pregação e do testemunho. ‘Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.’ Temos de lembrar que a pregação e a oração constituem os meios e não a causa por que alguém é salvo. A causa é o amor eletivo e incondicional de Deus. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que “todo aquele” crerá e não perecerá.” [11]

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Dito isso, vejamos os textos bíblicos:

Em Atos 13.48, encontramos a seguinte narrativa:

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.

Os gentios ouviram a Palavra pregada e creram. Mas além da crença, nos é revelado a ordenação de Deus para a crença. Colocando em ordem, o decreto da eleição veio antes da fé, sendo apenas possível a salvação de eleitos. Esse texto é bastante conhecido pelos calvinistas, e usado para apresentar a soberania de Deus na salvação. Entretanto, o verso seguinte é esclarecedor quanto ao evangelismo. Diante de um verso 48 extremamente claro no que tange a eleição, o que esperar do verso 49? Evangelismo:

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E a palavra do Senhor se divulgava por toda aquela província.

Portanto, diante da eleição divina, a Palavra de Deus tem poder de ser ainda mais propagada a todo canto. Mas sem eleição, não teríamos razão para espalhar as Boas Novas.

Outro texto que nos incita ao evangelismo é João 10.16:

Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.

Jesus indica que além dos judeus eleitos, há outras ovelhas espalhadas por outros cantos. Mais do que uma ordem de pregar o Evangelho, este texto deve trazer uma explosão de alegria ao constatar que temos irmãos por todo canto. O que devemos fazer? Ir até eles e apresentar as Boas Novas!

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Outro texto nessa mesma esteira é João 11.51-52:

Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos.

O apóstolo Paulo, aquele dentre os apóstolos que falou de forma mais clara sobre eleição, foi um dos maiores missionários do cristianismo. Muitos estudos, inclusive, são feitos acerca de suas viagens missionárias. E mesmo diante de muitas dificuldades e perigos de morte, nunca desanimou na sua missão de pregar o Evangelho. Se tem alguém que poderia dizer que a doutrina da eleição enfraquece o zelo missionário, esse alguém seria Paulo. Mas longe disso, ele creu ainda mais em Deus no que concerne a eleitos espalhados:

E disse o Senhor em visão a Paulo: Não temas, mas fala, e não te cales; Porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.[12]

O mesmo apóstolo, quando estava encerrando sua carta aos Romanos, disse do seu empenho em anunciar o evangelho aos que nunca tinham ouvido. Diferente do que muitos fazem hoje, quando anunciam em “aquários alheios”, Paulo se esforçava por pregar aos não alcançados:

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E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio.[13]

Ora, esforço por pregar aos ímpios mesmo crendo na doutrina da eleição? Pelo que consta, portanto, a doutrina soberania de Deus na salvação, longe de contrariar a missão, impulsiona.

Diante desses textos, queridos irmãos, e com muitas provas históricas de que os maiores missionários na história da igreja eram calvinistas, concluímos que é um mito bastante infundado acreditar que crer na predestinação é também fazer morrer o zelo missionário. Evidentemente que há muitos de linha mais radical, chamados por alguns de hipercalvinistas, que não evangelizam. Todavia, a razão é puro desconhecimento da doutrina e falta de amor aos perdidos.

Quero encerrar esse texto respondendo a mais uma questão que é levantada por muitos que criam esse tal mito: “então é uma mentira anunciar o Evangelho dizendo que Deus ama todos os que estão ouvindo, sendo que isso não é uma verdade.”

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Ora, quem está ouvindo? Um morto? Estamos falando de verdades espirituais, e a Santa Palavra diz que as coisas espirituais se discernem espiritualmente.[14] Um ímpio ouve de forma física o chamado divino e zomba daquilo. Certamente que o amor eletivo de Deus não o alcança. Apenas os eleitos ouvem a voz e seu pastor. Sendo a pregação um trabalho espiritual, não estamos dizendo que Deus ama quem na verdade Deus não ama. George Whitefield, um calvinista admirado por muitos de nós, num trecho do sermão abaixo, oferece a salvação a todos, muito embora sabemos que ele não crê que Deus ame eletivamente a todos:

“Hoje, eu lhes ofereço a salvação. A porta da misericórdia ainda está aberta. Ainda existe um sacrifício que redime todo pecado, para aquele que receber a Jesus. Ele o envolverá nos braços do seu amor. Converta-se a Jesus, converta-se de sua indignidade; diga-Lhe que você é impuro, vil; não seja incrédulo, mas crente. Por que ter receio de que o Senhor Jesus não o receberá? Seus pecados não constituem um obstáculo; sua indignidade não é um impedimento. Se o seu coração corrompido não o impede de vir a Ele, nada impedirá a Cristo de recebê-lo. O Senhor Jesus se deleita em contemplar pecadores indignos vindo até Ele e se agrada em vê-los prostrarem-se aos seus pés, clamando pelo cumprimento de suas promessas. Se você vier a Cristo deste modo, Ele não o mandará embora, sem outogar-Lhe o seu Espírito. Pelo contrário, o Senhor Jesus o receberá e o abençoará. Não menospreze este amor infinito. Jesus deseja somente que você creia nEle, para que seja salvo. Isto é tudo o que o Salvador amado deseja, para torná-lo feliz: que você abandone seus pecados, a fim de assentar-se eternamente ao lado dEle, na ceia das bodas do Cordeiro. Permita-me rogar-lhe que venha a Jesus e o receba como seu Senhor e Salvador. Ele está disposto a recebê-lo. Convido-o a vir a Ele, a fim encontrar descanso para sua alma. O Senhor Jesus se regozijará e exultará. Ele o chama por intermédio dos ministros do evangelho. Ó, venha a Jesus, que está agindo para libertá-lo do pecado e de Satanás e trazê-lo para Si mesmo. Abra a porta do seu coração, e o Rei da glória entrará. Meu coração está ardendo; tenho de falar, pois, do contrário, explodirei. Você acha que sua alma não tem valor algum? Considera-a indigna de ser salva? Seus prazeres são mais importantes do que sua alma? Você prefere os deleites da vida à salvação da sua alma? Se isto é verdade, você nunca participará da glória eterna, com Jesus. Mas, se vier a Jesus, Ele lhe concederá sua graça nesta vida e o levará à glória, no porvir. E você entoará louvores e aleluias para sempre. Desejo que este seja o destino feliz de todos os que me ouvem!”[15]

Que esse convite fervoroso seja feito por cada um de nós, para que a Palavra, pela ação do Espírito Santo, possa fazer regenerar todos aqueles que já foram destinados a crer.

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Deus te abençoe!


[1] Efésios 1.4-5
[2] Romanos 9.14-23
[3] Sermão intitulado “Calvinismo e Evangelismo. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=8d1L7gfYddE&t=2613s>
[4] Artigo “Calvinistas Evangelizam?” disponível em <http://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=441:calvinistas-evangelizam-parte-1&catid=25:artigos&Itemid=123>
[5] Ibid.
[6] Disponível em <http://www.seminariojmc.br/index.php/2018/01/15/a-franca-antartica-primeira-presenca-calvinista-no-brasil/>
[7] Artigo “O Calvinismo Destrói o Espírito Missionário?”, disponível em <https://coalizaopeloevangelho.org/article/o-calvinismo-destroi-o-espirito-missionario/>
[8] Ibid.
[9] Lista extraída do artigo já citado intitulado “O Calvinismo Destrói o Espírito Missionário?”, disponível em <https://coalizaopeloevangelho.org/article/o-calvinismo-destroi-o-espirito-missionario/>
[10] Romanos 10.14-15
[11] Artigo “O que pensamos sobre calvinismo e evangelismo”, disponível em <https://ministeriofiel.com.br/artigos/o-que-pensamos-sobre-calvinismo-e-evangelismo/>
[12] Atos 18.9-10
[13] Romanos 15.20
[14] 1 Coríntios 2.15
[15] Disponível em <https://ministeriofiel.com.br/artigos/o-que-pensamos-sobre-calvinismo-e-evangelismo/>


2020 © Rodrigo Caeté. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

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Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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