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Os Cânones de Dort (3): Abordagem do Sínodo


Nesta série, vamos entender o que significou Os Cânones de Dort com o Dr. R. Scott Clark. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno dos Cânones de Dort é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é o terceiro artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


Vivemos em dias de uma ‘cultura vitimista’. O melhor exemplo disso é a chamada ‘interseccionalidade’, [quando tudo converge ou se resume a uma suposta opressão, querendo levantar uma vítima]. Existem diferentes maneiras pelas quais alguém pode ser vitimizado, e todas elas focam no suposto sofrente [não importando a verdade que possa ser transgredida para se levantar uma vítima]. É como um jogo, aquele com o maior número de reclamações consegue alcançar o status de vítima. Heather MacDonald explica:

“Interseccionalidade refere-se à maior opressão supostamente experimentada por indivíduos que podem provar várias categorias de vitimização – sendo mulher, negra ou transexual, por exemplo.”

Atualmente, a abordagem da política de identidade e da formação de identidade é o resultado das várias análises marxistas da história, que dizem ser a história dos opressores, das vítimas e da liberação política/econômica/social. Essa teoria tem progredido ao custo de violentas revoluções e colisões; basta observarmos o século XX em que a ideologia marxista resultou na morte de dezenas de milhões de pessoas na Rússia, China, Vietnã, Cuba, Coréia do Norte e Camboja, isto é, para citarmos apenas alguns exemplos. Muito antes de Karl Marx (1818-1883), no entanto, os remonstrantes adotaram uma identidade de vítima. Em sua narrativa, Armínio era apenas um pastor piedoso reformado que foi injustamente perseguido por sua pregação e ensino e, junto a ele, foram os remonstrantes. De fato, a preocupação com o ensino de Armínio surgiu quase que imediatamente, mas a resolução final levou quase 30 anos.

Além disso, a preocupação com o que Armínio e seus seguidores estavam ensinando estava difundida por toda a Europa e nas Ilhas Britânicas. Foi percebido imediatamente como um ataque fundamental à teologia agostiniana básica e às doutrinas sólidas da Reforma Protestante (salvação ‘sola gratia’ e ‘sola fide’). Em Herborn, Johannes Piscator (1546–1625) escreveu contra os arminianos. Pierre DuMoulin (1568-1658) escreveu A Anatomia do Arminianismo (1618), ainda, talvez, a maior crítica ao Arminianismo. Por alguns anos antes de Armínio, Peter Baro (1534-1599) havia ensinado algo como o que Armínio ensinaria em Amsterdã e Leiden. O Arcebispo Whitgift (c. 1530–1604) respondeu em 1595 com os ‘Artigos de Lambeth’, reafirmando a visão agostiniana do pecado, graça e eleição. Após o Sínodo, William Ames (1576-1533) iria publicar seus ‘Animadversions’ contra os Remonstrantes em 1629.

À medida que a controvérsia teológica esquentava na Holanda, na Europa e nas Ilhas Britânicas, a polarização entre os arminianos e os calvinistas ameaçava explodir em guerra aberta. Príncipe Maurício (Maurits; 1567–1625) e o primeiro-ministro das Províncias Unidas, Jan van Oldenbarnevelt (1547–1619), estavam distantes. Este último apoiou os arminianos e Maurício ficou do lado dos ortodoxos. A Inglaterra, que se envolveu profundamente na Holanda, ficou do lado de Maurício contra a Espanha. Depois que as linhas de discordância se tornaram claras, à luz da Conferência em Haia (1611), a pressão se voltou para Maurício a fim de apoiar os ortodoxos contra os Remonstrantes, para levar o assunto a uma resolução, apesar de suas dúvidas sobre o que isso significaria para o governo nacional único (tal como foi) contra os espanhóis. Os Remonstrantes haviam realizado uma assembleia, mas apenas para revisar a ordem da igreja para dar aos magistrados (tipicamente latitudinários) mais controle sobre a igreja (a posição defendida por Guilherme de Ockham no século 14 contra o papado e pelo médico e doutora do século XVI. Teólogo leigo Thomas Erastus) e revisar a Confissão Belga para permitir a visão Remonstrante da eleição condicional.

Houve algum apoio popular aos ortodoxos na Holanda. Onde os Remonstrantes obtiveram o controle das igrejas, eles proibiram os Reformados de saírem para começar novas congregações confessionais. Essa abordagem de mão pesada saiu pela culatra. Houve apoio popular nas igrejas para a doutrina confessional da salvação, para a posição contra-remonstrante como articulada em Haia em 1611. Em 1617, tumultos pelos ‘Contras’ eclodiram. Quatro províncias instaram os Estados Gerais a convocar um sínodo nacional para resolver a crise.

A província da Holanda, dominada politicamente por Oldenbarnevelt e pelos partidários dos remonstrantes, resistiu ao apelo por um sínodo. Eles sentiram que as coisas poderiam ir contra eles. Agora a sobrevivência das Províncias Unidas estava em jogo. Oldenbarnevelt até procurou persuadir os membros do exército a prestar um juramento de lealdade à Holanda contra as Províncias Unidas. Em novembro, os Estados Gerais votaram para chamar um sínodo nacional. A Holanda se opôs, mas quando o príncipe Maurício e suas tropas de batalha enfrentaram as tropas de Oldenbarvenelt em Utrecht (situada entre a Holanda do Norte e o Sul da Holanda), as tropas de Oldenbarnevelt cederam. Em agosto, Oldenbarnevelt, Hugo Grotius (1583–1645) e outros foram presos. O líder remonstrante Johannes Uytenbogaert (1557–1644) fugiu do país. Oldenbarnevelt foi condenado por alta traição e seria decapitado em Haia em 14 de maio de 1619, depois do Sínodo. Seu filho retaliou tentando assassinar o príncipe Maurício, cujo pai havia sido assassinado em 1584.

O Sínodo foi convocado para 13 de novembro de 1618. Os Reformados sabiam que a controvérsia com os Remonstrantes representava mais do que uma disputa teológica paroquial. O futuro da nação e da Reforma estava em jogo. Eles acreditavam que os remonstrantes estavam levando a nação para trás em direção à heresia do pelagianismo e daí para o socianismo. Seus medos tinham algum fundamento. O teólogo designado para suceder Armínio em Leiden, Conrad Vorstius (1569-1622) era suspeito de socinianismo, assim como Simão Episcópio (1583-1644), agora o principal teólogo remonstrante. Os ortodoxos não foram os únicos a suspeitar de Episcópio. Nas últimas décadas, John Platt e Sarah Mortimer viram conexões entre Episcópio e o socinianismo.

O Sínodo finalmente se reuniu no Kloveniersdoelen (um depósito militar) em Dordtrecht em 13 de novembro de 1618. Consistindo em 84 membros e 18 comissários seculares, dos quais 58 eram dos Países Baixos (designados ‘interni’ na ata), os demais estrangeiros (‘externi’). Participaram como delegados e observadores alguns dos mais destacados teólogos reformados de toda a Holanda, Europa e Grã-Bretanha no início do século XVII. Havia três tipos diferentes de delegações: políticas, estrangeiras e provinciais. Os delegados políticos representaram os Estados Gerais e convocaram oficialmente o Sínodo. Delegados estrangeiros representavam as igrejas reformadas da Inglaterra, os ducados alemães e as cidades-estado suíças. A delegação francesa reformada, a ser liderada por Pierre du Moulin, foi proibida por Luís XIII, rei da França, de comparecer. Sua ausência foi marcada por um banco vazio no Sínodo.

Os ortodoxos (Contra-Remonstrantes) eram dominantes nas Províncias, exceto em Utrecht (que tinha uma delegação dividida). Nas primeiras sessões, o Sínodo convocou os 13 principais Remonstrantes para aparecerem. Episcópio veio como seu porta-voz.

Como diz Donald Sinnema, o processo geral do Sínodo:

“Consistia em três fases. Antes da chegada dos Remonstrantes, o Sínodo discutiu vários assuntos não doutrinários, incluindo tradução da Bíblia, instrução de catequese, batismo de escravos pagãos sob os cuidados dos cristãos, preparação para o ministério e censura de livros. Então, a maior parte de seu tempo foi dedicada à questão doutrinária com os remonstrantes. Depois que este trabalho foi concluído no início de maio com a produção dos Cânones, os teólogos estrangeiros voltaram para casa e os delegados holandeses discutiram vários assuntos de relevância específica para as igrejas holandesas, incluindo a questão da ordem da igreja e da liturgia”.

A principal questão processual enfrentada no Sínodo era a de saber se ela tinha o direito de julgar os Remonstrantes, uma vez que era dominada pelos ‘Contras’, que eram a outra parte na disputa. Eles queriam uma conferência e não um tribunal. Para o Sínodo, entretanto, a questão era se “a Igreja tem o direito de julgar visões doutrinárias que se desviem dos padrões confessionais da ortodoxia” (Sinnema). Os Remonstrantes queriam ser capazes de refutar os ortodoxos livremente. Eles recorreram às cartas de intimação repetidamente como base para sua reivindicação. Segundo o Sinnema, a intenção das cartas era convocar os Remonstrantes para o tribunal, mas eram duas versões diferentes da convocação, uma das quais (a convocação para os delegados políticos) era vaga o suficiente para dar espaço ao argumento remonstrante de que eles tinham igual posição antes do Sínodo.

O Sínodo realizou uma série de sessões diárias durante as quais os vários “colégios” (comités) compostos por delegações nacionais e provinciais prepararam rascunhos das respostas sobre cada fundamento de doutrina. Lembre-se, eles tinham o ‘Contra Remontance’ de 1611 como um modelo para trabalhar. Essas respostas foram então tomadas por um comitê executivo, que formulou a versão final das respostas e as apresentou ao sínodo como um todo. A versão final foi significativamente diferente de qualquer dos esboços colegiados (comitê). Alguns dos britânicos ficaram especialmente ofendidos com o que consideravam imperativo holandês. O Sínodo foi chamado para votar “satisfeito” (placet) ou “descontente” (non placet) a cada um dos fundamentos de doutrina.

Da delegação dos Remonstrantes, somente um ministro de Brummel, Henrique Leão, subscreveu o ‘Catecismo de Heidelberg’ e os Atos do Sínodo, e manteve sua posição como pastor. Os outros 13 delegados dos Remonstrantes foram removidos de suas posições. Cerca de 200 remonstrantes foram removidos como pastores. Mais tarde 40 foram restaurados depois de assinar a fórmula de submissão. 70 foram autorizados a viver como cidadãos particulares depois de assinar uma promessa de não promulgar pontos de vista arminianos. O restante que se recusou a se submeter ou a ficar em silêncio foi banido.

Os Remonstrantes, no entanto, não desapareceram. Uytenbogaert, Episcópio e outros convocaram um Sínodo Remonstrante em Antuérpia em outubro de 1619, com a presença de 40 ministros arminianos. Eles foram protegidos pelo Arquiduque Albert, que se beneficiou da controvérsia em curso. Episcópio e Grotius se mudaram para a França, outros para a Dinamarca. Outros Remonstrantes realizaram reuniões clandestinas nos Países Baixos. O historiador da igreja de Princeton, Samuel Miller (1769-1850) notou em 1841, que os Remonstrantes foram readmitidos nos púlpitos após a morte de Maurício, em 1625. Não demorou muito para o racionalismo começar a se espalhar através da Igreja Reformada na Holanda. As autoridades civis não ficaram entusiasmadas com a ordem da igreja pelo sínodo, que exigia que o Sínodo se reunisse a cada três anos. Isso na verdade não aconteceu, e a fraqueza da igreja em relação aos magistrados e sua falta de liberdade de controle e influência pelos magistrados significou que o Sínodo não foi capaz de impedir a propagação do erro na igreja. No século XIX, “Sínodo” significava que alguns ministros viajavam para Haia para solucionar dilemas existentes para depois adiá-los novamente. Não seria uma surpresa haver uma separação (Afscheiding) em 1834.

Na visão dos ortodoxos, não foram os remonstrantes que foram vítimas, mas os ortodoxos que sofreram por causa de Cristo. O prefácio do “Acórdão do Sínodo”, publicado em 9 de maio de 1619, observou a constante perseguição da verdadeira igreja neste mundo. Descreveu o perigo dos “sedutores tortos”, que ameaçavam a igreja. Depois de ser resgatada da

“tirania do Anticristo romano, e a idolatria horrível de papado (papatus) e muitas vezes mais milagrosamente preservada nos perigos de uma guerra longa e continuada; e florescendo na concordância da verdadeira doutrina e disciplina para o louvor de seu Deus, para um aumento admirável da república e a alegria de todo o mundo Reformado, Jacó Armínio e seus seguidores, retendo o nome de Remonstrantes, por vários erros antigos, bem como novos, a princípio secretamente, e depois abertamente atacados, e enquanto era incessantemente perturbada com dissensões e cismas escandalosas, eles a haviam exposto a um extremo perigo e, a menos que a misericórdia de nosso Salvador não tivesse se interposto oportunamente em favor da sua mais florescente igreja, eles a consumiram demoradamente com a horrível conflagração de discórdias e cismas”.

O Sínodo de Dort não foi um mero exercício político. Na visão dos ortodoxos, não se tratava do controle político dos Países Baixos, mas da “glória de Deus” e da “integridade da verdade salvadora”. Os conceitos arminianos eram uma volta à teologia pré-Reforma. A teologia arminiana, como ficou evidente em Episcópio, Grotius e mais tarde em Wesley, não começa onde Agostinho (354-430) e Anselmo (1033-1109) haviam começado: “Eu creio para que eu possa entender” (Credo ut intelligam) nem era “fé em busca de entendimento” (fides quaerens intellectum). Pelo contrário, a teologia arminiana procurou tornar a teologia reformada mais razoável. Eles estavam preparados para acreditar no que poderiam entender. Assim, como Pelágio, eles minimizaram os efeitos do pecado, tornaram a eleição condicional, a expiação universal e questionaram a graça da perseverança. Eles colocam os crentes de volta à busca do salário do trabalho, portanto, de volta ao pacto das obras. Por estarem insatisfeitos com a doutrina da Salvação da Reforma, eles transformaram o evangelho em lei, a fim de produzir o tipo de obediência e boas obras que eles achavam que deveriam ser concedidas.

É claro que esta não era a teologia, a piedade e a prática paulina, nem a de Lutero, nem a das igrejas reformadas que apoiaram Lutero nas doutrinas agostinianas de pecado e graça, eleição incondicional, uma expiação intencional e pessoal (redenção realizada, não meramente tentativa) oferecida gratuitamente aos pecadores em todos os lugares, e a soberana graça de Deus na preservação de seus eleitos somente pela fé.


2019 © Traduzido por Amanda Martins, revisado por Elnatan Rodrigues. Texto original em The Heidelblog, essa série pode ser encontrada em áudio (inglês) na Abounding Grace Radio.

R. Scott Clark

R. Scott Clark

Dr. Clark estudou na Universidade de Nebraska (EUA), no Westminster Seminary California e no St Anne's College , na Universidade de Oxford. É ministro das Igrejas Reformadas Unidas na América do Norte desde 1998.

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