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Os Cânones de Dort (4): Graça Incondicional(8 min de Leitura)

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Nesta série, vamos entender o que significou Os Cânones de Dort com o Dr. R. Scott Clark. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno dos Cânones de Dort é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é o terceiro artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


No prefácio dos Cânones de Dort, o Sínodo caracterizou os desafios que enfrentou e a promessa na qual ele se baseou para enfrentar esses desafios. O prefácio caracterizou a vida cristã como uma “peregrinação miserável”. De fato, ela é, porém é conduzida sob o cuidado pastoral de Jesus, nosso sumo sacerdote, que “entrou no santuário celestial para ir a seu Pai”, onde se cumpre a Grande Promessa por trás da Grande Comissão: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:20).

A caracterização do Sínodo dos oponentes da fé reformada na Holanda também é instrutiva. Ela menciona duas ameaças. Primeiro, “a força pública dos inimigos e a violência ímpia dos hereges” e, segundo, “as sutilezas mascaradas dos sedutores”. A primeira é uma referência evidente a Filipe II (rei da Espanha), que procurou exterminar os reformados na Holanda. Sob sua campanha, cerca de 12.000 cristãos reformados foram assassinados pelas mãos dos espanhóis. Os sedutores sutis referem-se a Armínio e aos Remonstrantes. De fato, na ausência da Grande Promessa, as igrejas teriam ficado “nuas sem o benéfico consolo de sua presença prometida”, ficando com isso oprimidas e cativas.

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A narrativa e auto-identidade dos Remonstrantes (arminianos) é a da vítima. Eles vêem Armínio como a vítima inocente da hostilidade injustificada. Eles vêem os Remonstrantes como justos manifestantes, tratados de maneira injusta. O Sínodo, no entanto, pintou uma imagem muito diferente. De acordo com os reformados, não foi Armínio e nem mesmo os seus seguidores as vítimas, mas as igrejas reformadas:

“Esta Igreja foi atacada, primeiro em segredo e depois publicamente por Jacó Armínio e seus seguidores (com o nome de Remonstrantes). Eles fizeram isso por meio de vários erros antigos e novos. Essas florescentes igrejas, sendo persistentemente perturbadas por disputas e cismas ofensivas, foram colocadas em tão grave aflição que corriam o risco de serem consumidas por um terrível incêndio de discórdia.”

Eu observei em outro lugar que o Sínodo caracterizou os Remonstrantes como hereges [leia os artigos anteriores]. Eles o fizeram porque viram os Remonstrantes não apenas discordando em pontos menores ou técnicos (por exemplo, a ordem lógica dos decretos). Eles viram o programa dos Remonstrantes como um ataque total à Reforma e ao evangelho. Sob as revisões do Remonstrante, o pacto da graça se torna um pacto de obras. O evangelho se torna lei e a certeza da fé é destruída.

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A primeira coisa que o Sínodo confessou contra os Remonstrantes não foi, como sugere o arranjo da TULIP (do início do século 20), isto é, a “depravação total”, mas sim a graça incondicional. Corretamente, a expressão graça incondicional é redundante (já que pela natureza a graça é incondicional), mas eu a uso por causa do que os arminianos estavam ensinando: que a eleição está condicionada à fé prevista (fides praevisa). Nesse caso, a graça não é mais graça, uma vez que, no esquema Remonstrante, a fé é imputada a nós, sendo ainda o produto, até certo ponto, de nossa cooperação com a graça. Como já vimos, os Remonstrantes tornaram nossa salvação dependente de nossa fidelidade e perseverança. Lembre-se, eles redefiniram a graça como resistível. Em seu esquema, nossa cooperação livre com graça torna a “graça” eficaz. Sem isso, a redenção e a graça não passam de um potencial.

Sabemos disso porque o Sínodo resumiu a visão Remonstrante na Rejeição dos Erros (RE – Reijeição dos Erros) sob cada cabeça de doutrina. Em RE 1.1, Sínodo declarou: “Nós rejeitamos o erro daqueles que ensinam”:

“Quem ensina: Que a vontade de Deus para salvar aqueles que creriam e perseverariam na fé e na obediência da fé se resume no decreto de eleição, e que nada mais referente a este decreto foi revelado na Palavra de Deus. Pois estes enganam os simples e claramente contradizem as Escrituras, que declaram que Deus não apenas salvará aqueles que hão de crer, mas que Ele também escolheu desde a eternidade certas pessoas particulares a quem, acima de outros, Ele concederá em tempo, tanto fé em Cristo e perseverança; como está escrito: “Eu revelei o teu nome aos homens que me deste do mundo” (Jo 17: 6), e “todos os que foram designados para a vida eterna creram” (Atos 13:48). E “nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef 1:4).”

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Sínodo confessado em CD 1.1:

“Como todos os homens pecaram em Adão, logo todos estão debaixo da maldição, e merecem a morte eterna, Deus não teria feito injustiça alguma deixando todos eles perecerem e entregando-os à condenação por causa do pecado, de acordo com as palavras do apóstolo: “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19b). E: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). E: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).”

Para combater essa noção, o Sínodo começou onde a Escritura começou: Em nossa incapacidade. Este não é o principal tópico da cabeça da doutrina, mas é uma pré-condição necessária. Não podemos entender a verdadeira natureza da graça até que tenhamos alguma ideia de nossa necessidade desesperada. Os Remonstrantes haviam redefinido as consequências do pecado. Segundo eles, não estamos, em Adão, mortos em pecados e transgressões.

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Na natureza da justiça, Deus não nos devia nada além de julgamento. A graça é um favor aos pecadores que merecem o inferno. A graça não é um mero potencial ou assistência com a qual cooperamos. Como vimos, é assim que os Remonstrantes redefiniram a graça na 3ª e na 4ª cabeças de sua Remonstrância de 1610. A verdadeira graça é favor imerecido de Deus pelos pecadores eleitos, através do Justo Salvador Jesus. Esse favor é concedido aos eleitos, a tempo, apesar de seus deméritos. “O salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna”. A graça é uma dádiva incondicional aos pecadores.


2019 © Traduzido por Amanda Martins, revisado por Elnatan Rodrigues. Texto original em The Heidelblog, essa série pode ser encontrada em áudio (inglês) na Abounding Grace Radio.

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R. Scott Clark

R. Scott Clark

Dr. Clark estudou na Universidade de Nebraska (EUA), no Westminster Seminary California e no St Anne's College , na Universidade de Oxford. É ministro das Igrejas Reformadas Unidas na América do Norte desde 1998.

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