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Os Cânones de Dort (4): Graça Incondicional


Nesta série, vamos entender o que significou Os Cânones de Dort com o Dr. R. Scott Clark. Todo conteúdo está postado numericamente em ordem subsequentes, para ter amplo e completo entendimento em torno dos Cânones de Dort é necessário que siga as dispensações nas quais os artigos foram publicados aqui no site. Este texto é o terceiro artigo da série, visite todos os artigos da série clicando aqui.


No prefácio dos Cânones de Dort, o Sínodo caracterizou os desafios que enfrentou e a promessa na qual ele se baseou para enfrentar esses desafios. O prefácio caracterizou a vida cristã como uma “peregrinação miserável”. De fato, ela é, porém é conduzida sob o cuidado pastoral de Jesus, nosso sumo sacerdote, que “entrou no santuário celestial para ir a seu Pai”, onde se cumpre a Grande Promessa por trás da Grande Comissão: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:20).

A caracterização do Sínodo dos oponentes da fé reformada na Holanda também é instrutiva. Ela menciona duas ameaças. Primeiro, “a força pública dos inimigos e a violência ímpia dos hereges” e, segundo, “as sutilezas mascaradas dos sedutores”. A primeira é uma referência evidente a Filipe II (rei da Espanha), que procurou exterminar os reformados na Holanda. Sob sua campanha, cerca de 12.000 cristãos reformados foram assassinados pelas mãos dos espanhóis. Os sedutores sutis referem-se a Armínio e aos Remonstrantes. De fato, na ausência da Grande Promessa, as igrejas teriam ficado “nuas sem o benéfico consolo de sua presença prometida”, ficando com isso oprimidas e cativas.

A narrativa e auto-identidade dos Remonstrantes (arminianos) é a da vítima. Eles vêem Armínio como a vítima inocente da hostilidade injustificada. Eles vêem os Remonstrantes como justos manifestantes, tratados de maneira injusta. O Sínodo, no entanto, pintou uma imagem muito diferente. De acordo com os reformados, não foi Armínio e nem mesmo os seus seguidores as vítimas, mas as igrejas reformadas:

“Esta Igreja foi atacada, primeiro em segredo e depois publicamente por Jacó Armínio e seus seguidores (com o nome de Remonstrantes). Eles fizeram isso por meio de vários erros antigos e novos. Essas florescentes igrejas, sendo persistentemente perturbadas por disputas e cismas ofensivas, foram colocadas em tão grave aflição que corriam o risco de serem consumidas por um terrível incêndio de discórdia.”

Eu observei em outro lugar que o Sínodo caracterizou os Remonstrantes como hereges [leia os artigos anteriores]. Eles o fizeram porque viram os Remonstrantes não apenas discordando em pontos menores ou técnicos (por exemplo, a ordem lógica dos decretos). Eles viram o programa dos Remonstrantes como um ataque total à Reforma e ao evangelho. Sob as revisões do Remonstrante, o pacto da graça se torna um pacto de obras. O evangelho se torna lei e a certeza da fé é destruída.

A primeira coisa que o Sínodo confessou contra os Remonstrantes não foi, como sugere o arranjo da TULIP (do início do século 20), isto é, a “depravação total”, mas sim a graça incondicional. Corretamente, a expressão graça incondicional é redundante (já que pela natureza a graça é incondicional), mas eu a uso por causa do que os arminianos estavam ensinando: que a eleição está condicionada à fé prevista (fides praevisa). Nesse caso, a graça não é mais graça, uma vez que, no esquema Remonstrante, a fé é imputada a nós, sendo ainda o produto, até certo ponto, de nossa cooperação com a graça. Como já vimos, os Remonstrantes tornaram nossa salvação dependente de nossa fidelidade e perseverança. Lembre-se, eles redefiniram a graça como resistível. Em seu esquema, nossa cooperação livre com graça torna a “graça” eficaz. Sem isso, a redenção e a graça não passam de um potencial.

Sabemos disso porque o Sínodo resumiu a visão Remonstrante na Rejeição dos Erros (RE – Reijeição dos Erros) sob cada cabeça de doutrina. Em RE 1.1, Sínodo declarou: “Nós rejeitamos o erro daqueles que ensinam”:

“Quem ensina: Que a vontade de Deus para salvar aqueles que creriam e perseverariam na fé e na obediência da fé se resume no decreto de eleição, e que nada mais referente a este decreto foi revelado na Palavra de Deus. Pois estes enganam os simples e claramente contradizem as Escrituras, que declaram que Deus não apenas salvará aqueles que hão de crer, mas que Ele também escolheu desde a eternidade certas pessoas particulares a quem, acima de outros, Ele concederá em tempo, tanto fé em Cristo e perseverança; como está escrito: “Eu revelei o teu nome aos homens que me deste do mundo” (Jo 17: 6), e “todos os que foram designados para a vida eterna creram” (Atos 13:48). E “nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef 1:4).”

Sínodo confessado em CD 1.1:

“Como todos os homens pecaram em Adão, logo todos estão debaixo da maldição, e merecem a morte eterna, Deus não teria feito injustiça alguma deixando todos eles perecerem e entregando-os à condenação por causa do pecado, de acordo com as palavras do apóstolo: “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19b). E: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). E: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).”

Para combater essa noção, o Sínodo começou onde a Escritura começou: Em nossa incapacidade. Este não é o principal tópico da cabeça da doutrina, mas é uma pré-condição necessária. Não podemos entender a verdadeira natureza da graça até que tenhamos alguma ideia de nossa necessidade desesperada. Os Remonstrantes haviam redefinido as consequências do pecado. Segundo eles, não estamos, em Adão, mortos em pecados e transgressões.

Na natureza da justiça, Deus não nos devia nada além de julgamento. A graça é um favor aos pecadores que merecem o inferno. A graça não é um mero potencial ou assistência com a qual cooperamos. Como vimos, é assim que os Remonstrantes redefiniram a graça na 3ª e na 4ª cabeças de sua Remonstrância de 1610. A verdadeira graça é favor imerecido de Deus pelos pecadores eleitos, através do Justo Salvador Jesus. Esse favor é concedido aos eleitos, a tempo, apesar de seus deméritos. “O salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna”. A graça é uma dádiva incondicional aos pecadores.


2019 © Traduzido por Amanda Martins, revisado por Elnatan Rodrigues. Texto original em The Heidelblog, essa série pode ser encontrada em áudio (inglês) na Abounding Grace Radio.

R. Scott Clark

R. Scott Clark

Dr. Clark estudou na Universidade de Nebraska (EUA), no Westminster Seminary California e no St Anne's College , na Universidade de Oxford. É ministro das Igrejas Reformadas Unidas na América do Norte desde 1998.

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