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Paulo era mesmo Feminista?(19 min de Leitura)

Não devemos ficar surpresos quando nos deparamos com pessoas questionando o feminismo do apóstolo Paulo. Esse questionamento decorre de muitos ainda insistirem em afirmar que, na verdade, ele era machista. “Em pleno século XXI, há ainda os que contrariam à logica cultural e reafirmam o tal machismo do apóstolo…”

“Ué, eu sempre ouvi que Paulo era machista, não feminista.”

Ficou confuso? Deixe-me explicar:

Evidentemente, Paulo não era nem feminista, nem machista. Como ele mesmo se define na maioria de suas cartas, ele era “servo de Cristo”. O que eu pretendo mostrar neste texto é que a Escritura se mostrará contracultural enquanto a cultura ainda não estiver sido redimida. O que o apóstolo fez em sua conhecida carta à igreja de Éfeso foi justamente mostrar o quanto a cultura da época estava não apenas interpretando mal a Escritura, como também desconstruindo a brilhante tipificação do Evangelho: o casamento.

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O título desse texto é proposital, mas não sem razão. Primeiro porque eu sei que esse tema – feminismo – está muito em voga atualmente, e não são poucos os que dizem professar a fé, mas ao mesmo tempo subscrevem esse tal movimento; e segundo porque a afirmação atualmente a respeito de Paulo é o oposto. Talvez para você o correto devesse ser: “Paulo era mesmo machista?” Porém, o meu ponto nesse texto é mostrar que o conteúdo da indagação vai depender do contexto e da cultura de quem pergunta.

O que eu estou querendo dizer é que não podemos fazer afirmações da Bíblia, à princípio, tendo como pano de fundo o contexto brasileiro no século XXI. Inicialmente, a base de interpretação é o contexto da época em que o texto, neste caso o texto Sagrado, foi escrito. Apenas depois de compreender o momento da época que podemos fazer aplicações segundo a cultura de quem interpreta.

Dito de outra forma, não podemos utilizar as lentes do século XXI para enxergar os escritos do primeiro século. Essa é a regra básica da hermenêutica cultural.

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Vejamos abaixo o clássico texto de Paulo:

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido. Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.

Efésios 5:22-23

Há uma beleza extraordinária neste texto, e muito do Evangelho eu aprendi através dele! Se compreendido da forma correta, o mesmo não apenas pode transformar casamentos, como também pode gerar um relacionamento com Deus ainda mais íntimo e amoroso.

O primeiro verso é o mais odiado pelas ditas feministas. Elas odeiam a palavra “submissão” e preferem a palavra “igualdade”. E muitos usam o verso 21 como prova dessa igualdade: “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.” Entretanto, embora o conceito de igualdade seja corretíssimo, não devemos defende-lo a partir desse verso.  Antes de prosseguirmos, preciso fazer uma correção a respeito. Isso porque quando escrevi o texto corrente pela primeira vez em meu blog, deixei-me levar pela interpretação majoritária no que tange ao verso 21: “sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo”. Contudo, quero aqui colocar o posicionamento que julgo ser o correto, embora seja a visão minoritária. A maioria dos teólogos diz que esse verso fala da igualdade em essência entre homem e mulher, para nos versos seguintes falar da diferença de papéis. Vejamos abaixo algumas citações de alguns teólogos e percebamos como todos eles interpretam essa passagem à luz de uma submissão mútua:

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Repetidas vezes nosso Senhor, durante seu tempo nessa terra, enfatizou esse mesmo pensamento, ou seja, que cada discípulo deveria estar disposto a ser o menor… e a lavar os pés a seus condiscípulos… O mesmo pensamento é substancialmente expresso em Romanos 12.10: ‘preferindo-se em honra uns aos outros’, e em Filipenses 2.3: ‘nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo’.”

(William Hendriksen)


“Em Cristo devemos ser submissos uns aos outros. Francis Foulkes diz que o entusiasmo que o Espírito Santo inspira não deve ser expresso individualmente na comunidade cristã… Paulo sabia que o segredo de manter a comunhão de gozo na comunidade era a ordem e a disciplina que vêm da submissão espontânea de uns aos outros.”


(Hernandes Dias Lopes)


“Aqui o apóstolo inicia sua exortação em relação aos deveres domésticos. Como fundamento geral pare esses deveres, ele apresenta a regra da sujeição mútua. Existe uma submissão mútua que os cristãos devem uns aos outros, dispondo-se a levar as cargas uns dos outros, não se colocando acima dos outros, nem dominando os outros e impondo leis aos outros. Paulo era um exemplo na verdadeira conduta cristã, porque se fez tudo para todos.”


(Matthew Henry)

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Não digo que os autores das citações acima são igualitaristas, embora todos os igualitaristas afirmem que Efésios 5.21 ensina uma submissão mútua entre homens e mulheres, o que constitui um erro. Veremos mais a frente que a igualdade em essência entre homem e mulher e o respeito entre ambos é bíblica, mas não a partir do verso citado.

Este versículo deve ser analisado a partir de seu contexto posterior, que indica outra coisa e não submissão mútua. De modo muito simples, o que o apóstolo Paulo faz no verso 21 é intitular o que vem a seguir. Quando ele diz “sujeitando-vos uns aos outros”, ele está introduzindo o seguinte: que as esposas se sujeitem a seus maridos; que os filhos se sujeitem aos pais; e que os servos se sujeitem aos seus senhores. De forma alguma estava na cabeça de Paulo que os maridos, os pais e os senhores deveriam se sujeitar, respectivamente, às esposas, aos filhos e aos servos. Dito de outra forma, o verso 21 não aponta para a submissão mútua em essência, mas para as submissões de papeis que virão a seguir. Além disso, quando olhamos para a palavra que o apóstolo usou para “sujeitai-vos uns aos outros” (hupotasso), notamos que ela somente é usada em situações envolvendo uma sujeição a uma autoridade, indicando, obviamente, que “alguns deveriam se sujeitar a outros” que detêm uma autoridade específica. Portanto, dentro desse contexto maior de Efésios 5 e 6, as esposas, os filhos e os servos deveriam se sujeitar à autoridade dos maridos, dos pais e dos senhores.

Um texto, contudo, que indica igualdade entre os gêneros é Gálatas 3.28: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo”. A partir deste texto, sim, podemos afirmar a igualdade em essência entre homem e mulher. O ponto é que ambos têm a mesma dignidade diante de Deus, e nem um nem outro pode se achar superior. Isso deve ser um fato incontestável na cristandade. Todavia, algo completamente diferente é o papel de autoridade que Deus conferiu ao homem e de submissa que deu a mulher. Devemos sempre ter em mente que dignidade de gênero não anula a diferença de papeis. Feita essa correção de meu texto original, voltemos à questão central do verso 22.

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Esse verso em questão pode até ser odiado em nossa cultura, mas certamente não o era na época em que fora escrito. Outro poderia ser mais odiado que esse. O que justifica isso é o fato de essa orientação – a mulher ser submissa ao marido – já ser absolutamente comum na época. Uma mulher poderia ler e dizer: “Ora, Paulo, não está me dizendo nada de novo. Já faço isso.” Um homem da mesma forma poderia replicar: “E qual é a novidade? Isso já acontece. Eu estou inculcado é com outro verso…”. O fato é que, à luz do contexto da época, Paulo não poderia ser acusado de machismo. Isso já era culturalmente aceito. Mas será que ele poderia ser chamado de feminista? Afirmo que sim!

O que estava sendo contracultural no escrito do apóstolo era outro verso:

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.

Efésios 5:25-30

Apenas o verso 25 já seria suficiente, mas coloquei todos esses para que não percamos o contexto. Tem muita coisa nas entrelinhas aí, e eram esses detalhes extras que poderiam fazer qualquer judeu daquela época se engraçar teologicamente contra Paulo. Percebam que Paulo está “batendo” mais nos homens que nas mulheres. Vejamos o porquê:

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Falar para o homem daquele contexto amar a sua esposa como Cristo amou a Igreja é radicalismo puro! É acabar com o orgulho “machista”! Por quê? Para responder a essa pergunta, precisamos nos lembrar como Jesus amou:

  1. A “Igreja” pecou contra Deus inicialmente;
  2. O Deus Trindade decide perdoar essa Igreja, que também é chamada de Noiva;
  3. Mas Ele não poderia perdoar sem punir justamente;
  4. Por isso, Deus Filho, Jesus, o Noivo, decide obedecer ao Pai e voluntariamente vir a Terra para salvar sua Noiva;
  5. Como a santidade de Deus exige punir o pecado, o Noivo assume todos os pecados de sua Noiva, e é condenado no lugar dela…Sobre Ele pesou a punição do próprio Deus Pai. Jesus fez isso por amor ao Pai e à sua Noiva! Ele se entrega em sacrifício!
  6. O Noivo dá um novo vestido branco de noiva à sua futura esposa. O casamento está marcado, mas neste caso a noiva não sabe a data, mas tem a certeza de que o Noivo virá para essa cerimônia.

Viu aí, homem? Falar isso para o homem daquela época era quase um atestado de autoapedrejamento. O ponto aqui é mostrar que se formos aplicar corretamente a hermenêutica cultural, perceberemos que o apóstolo poderia ser chamado de feminista e não de machista.

Notem como a Escritura é contracultual quando a cultura ainda apresenta pecados. As épocas mudaram e, por conta do pecado, os relacionamentos conjugais ainda continuam desiguais. Porém, se naquela época, o verso de ódio era o do homem dar a sua vida pela mulher, atualmente, em virtude de a cultura ter mudado, o verso de ódio é outro: a mulher se submeter ao marido. Evidentemente que, independente da cultura, a Escritura sempre vai dizer que tanto o feminismo quanto o machismo são absolutamente contra o padrão bíblico.

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Creio que até o presente momento do texto muitas mulheres estejam vibrando ao ouvir sobre como deve ser a atuação do homem ao buscar se parecer com Cristo. É fato que o princípio da igualdade de gênero é bíblico; é maravilhoso contemplar um Evangelho que convoca o homem a imitar a Cristo dando a vida por sua noiva. Mas há diferença entre homem e mulher?

Antes de continuar, quero dizer que não é proposta desse texto explicar o que significa ser “submissa” e o que significa ser “cabeça”; isso é assunto para outro momento. Desejo apenas discorrer sobre algumas questões teológicas a respeito da diferença.

Em primeiro lugar, você, homem, não É Cristo e nem você, mulher, É a Igreja em sua totalidade, mas apenas uma parte dela. Nesse sentido, você, homem, é chamado para ser como Cristo e você, mulher, como a Igreja. Isso indica muitas coisas:

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1)  O homem não é o Salvador nem o Senhor da mulher. A autoridade que ele tem é derivada de Deus. Isso significa que ele deve obediência ao verdadeiro Cabeça, que é Cristo. É apenas quando ele consegue se submeter ao verdadeiro cabeça que ele consegue ser o cabeça de sua esposa. Quando o homem “se sacrifica” por sua amada, não há esposa que, prazerosamente, não se lance em submissão e confiança nos braços desse marido;

2) Mulheres, o seu Senhor é Cristo, não seu esposo. Porém, a melhor forma que Deus escolheu para você mostrar seu amor por Ele foi você confiando na liderança de seu marido. Rebelar-se contra ele, quando este estiver se rendendo ao senhorio de Cristo, isto é, quando ele estiver te amando sacrificialmente, é se rebelar contra o Senhor! É PECADO!

3) No entanto, visto seu marido não ser seu Senhor, mas Cristo, quando seu esposo não mais estiver amando o Cabeça e estiver lhe tratando com amargura, você deve repreendê-lo em Cristo, com mansidão e amor. Quando ele tomar decisões que são claramente contra a vontade de Deus e o Seu Reino, você deve dizer para ele: “querido, eu te respeito como cabeça, mas neste caso específico eu fico com a Escritura e não com sua decisão!” Você em primeiro lugar, mulher, é Noiva de Cristo!

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4) Homens, vocês foram chamados para serem pastores de suas casas, e como tais, terão que prestar contas de seu rebanho, ainda que você só tenha uma ovelha. Jesus pagou um preço altíssimo por sua / Sua esposa (sua esposa e ao mesmo tempo futura Esposa dEle) e a ama profundamente e dela cuida. Ele não a trata com desprezo, covardia, desdém, autoritarismo, brutalidade, grosseria, amargura… mas com amor infindável. Ele deseja que você cuide da sua esposa da mesma forma como ele cuidou de você, Igreja e Noiva. Portanto, cuide dela pra Ele.

Finalmente, conforme dito inicialmente, o Evangelho está no cerne de tudo isso. Veja, por exemplo, como o apóstolo termina seu texto:

Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja

Efésios 5:31-32

Esse trecho diz bastante coisa. Mas terminarei apenas falando aquilo que entendo ser a essência desse trecho e a conclusão da temática geral.

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Depois de o apóstolo discorrer acerca do relacionamento entre homem e mulher, Paulo finaliza dizendo que, na verdade, estava se referindo à Cristo e à Igreja. Isso é fantástico! O mistério foi revelado: Ele está dizendo que o casamento foi criado para isso! Eu penso que a ideia é essa: Deus queria mostrar para seu povo o seu grande amor por ele. O que Ele precisava era criar algo que, por meio do qual, o ser humano pudesse compreender esse amor. Daí surgiu o casamento, como uma parábola da relação entre Cristo e a Igreja: “O homem vai apontar para o meu amor sacrificial, e a mulher, para a Igreja salva, linda e adornada, que ama o Noivo e a Ele se entrega em confiança.”

Que bela metáfora que Deus Criou: CASAMENTO.

Homem e mulher, não estraguem esse lindo retrato do Evangelho. Louvem e adorem ao Deus Trindade pela e através da igualdade e da diferença.

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Deus os abençoe!


2020 © Rodrigo Caeté. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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