Ministério Reformai
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Tua Angústia Foste Minha Paz

E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça.

João 1:16

Oh, maldita cruz do meu Senhor,
Tu ecoas tão grandes bençãos em meu favor;

Oh, aparente brado de derrota,
Tornaste meu consolo, minha rota;

Oh, amarga dor do Cristo,
És para mim doce e eterno riso;

Oh, angústia do Homem Perfeito,
Deste-me uma fatura sem defeito;

Oh, solidão do pobre Nazareno,
Uniste-me ao inabalável amor ferrenho.

Oh, sangue carmesim,
Purificaste um pecador como a mim.

Oh, suor sanguinário,
Foste pra minha’alma um verdadeiro hinário;

Oh, treva que Lhe encontrou,
Aparte-se de mim;
A morte se encerrou.

Oh, Amado Senhor Jesus,
Não há amor igual ao da cruz;

Oh, vida desprezível do pecador,
Redimida foste, agora viva para teu SENHOR.

Tua Angústia Foste Minha Paz
(Uma oração em reposta a Redenção de Cristo)

Considerações

A Maldição da Cruz

Cristo padeceu sob um madeiro amaldiçoado “porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3:13). Para algumas mentes isso pode passar despercebido sem que se dê maior atenção ao que as Escrituras tratam a respeito do assunto. Além disso, corre-se o risco do mal entendimento, isto é, não é um espanto encontrarmos pessoas que criaram um falso deus para si mesmas e quando falamos que Cristo padeceu sob a maldição de Deus isso pode soar, no mínimo, estranho para elas. Mas a verdade que temos das Escrituras é que Cristo padeceu sob a terrível maldição de Deus.

Agora observemos a extensão e o peso da santa maldição de Deus. Quando o Senhor dispõe diante do povo a benção e a maldição – “eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e maldição” (Dt 11:26) – há um paradoxo o qual somos desafiados a encarar. Como poderíamos cumprir com uma exigência que não teríamos condições alguma de cumpri-la? “A bênção, quando cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus que hoje vos mando” (Dt 11:27). Teria injustiça da parte de Deus ordenar a seu povo uma justiça que estaria fora do alcance de qualquer homem? “Porém a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus” (Dt 11:28). De forma nenhuma, pois a Lei nunca nos foi dada com a finalidade que alcançássemos a justiça por ela: “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20).

A Extensão da Maldição de Deus

Quando Deus dispõe a bênção diante de Israel é como se fosse colocado diante de um mendigo um excelente prato de comida a qual ele jamais pudesse comprar para degustá-la. Por outro lado, temos também a disposição da maldição divina, e observemos mais uma vez: Essa maldição não é uma cria demoníaca, mas divina; ela não está ligada a propagação do mal, mas a aniquilação dele por meio da manifestação da justiça de Deus. E o que quero dizer sobre isso? Para algumas mentes o fato de Deus lançar maldição sobre certo povo fere os conceitos que, até o momento, elas podem ter a respeito do Deus das Escrituras. Ao contrário do entendimento comum e imediato em que somos inclinados a atribuir aquilo que é ruim ou desconfortável ao homem como sendo obra maligna; a maldição de Deus, embora fira e até destrua o homem, não carrega vestígios maus, mas em toda sua extensão é santa, boa e dá glória a seu Nome.

Notemos, por exemplo, Deuteronômio 28. A partir do verso 15 temos a vinda das maldições sobre todos aqueles que quebrarem os mandamentos de Deus. Agora, conforme o texto nos ensina, a quebra de um mandamento não causará uma vinda de certa maldição em particular, mas provocará todo o corpo da maldição de Deus, ou seja, independente de um pequeno, médio ou grande pecado, todos eles causarão a vinda dessa santa maldição – “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Outro ponto que é digno de ser observado da extensão da maldição divina é que ela atinge toda plenitude do homem e sua obra, isto é, a maldição de Deus não se limita a atingir simplesmente a saúde e bem-estar do homem, mas alcançará também a sua obra; ela não se limitará em afetar o seu corpo, mas alcançará o seu espírito. Não há escapatória para nenhuma das partes, todas sentirão o peso da maldição divina. “Maldito serás ao entrares, e maldito serás ao saíres” (Dt 28:19).

A Distinção da Maldição Maligna e Divina

Como já foi falado anteriormente, a maldição de Deus não tem caráter maligno, mas santo. Vamos falar mais um pouco sobre isso. João diz: “Deus é luz, e não há nEle trevas nenhumas” (1 Jo 1:5). E ainda temos do profeta: ” Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” (Hb 1:13). Sendo assim, é inadmissível que seja atribuído a Deus, seja em qualquer medida, uma mancha em seus atributos. Então, qual seria a diferença da maldição de Deus para a maldição do diabo, por exemplo? “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45:7). Antes de tudo, o diabo só pode amaldiçoar aquilo que, por Deus, já foi amaldiçoado. O diabo não tem autonomia e muito menos autoridade para lançar sua maldade em um povo, exceto se Deus assim quiser, este cão maligno está preso pelas correntes de Deus e só ataca mediante sua permissão.

A maldição diabólica também está ligada ao fato de ser intencionalmente propagadora da iniquidade e, portanto, maligna, ou seja, ela não tem a finalidade punitiva ou de restringir os autores do mal, mas contribuir com eles cooperando para que o nível de transgressões alcance um patamar ainda mais elevado. Permita-me esclarecer isso melhor: O diabo não quer e nem pode desejar o que é bom, ao realizar certo feito seu desejo intrínseco é para o estabelecimento do caos e não da ordem, aqui está uma ruptura clara e definitiva da natureza de ambas maldições – “Vós tendes por pai o diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8:44). Agora, ainda que a intenção maligna seja para esse fim, o resultado final não pertence a sua autoridade, pois o próprio Deus pode se utilizar desse mal maligno para que se cumpra seus insondáveis decretos. Falemos mais um pouco sobre isso. Vejamos:

Não deis lugar ao diabo.

Efésios 4:27

Utilizemos Efésios 4:27 para tratarmos o assunto. O apóstolo ao exortar a Igreja de Éfeso diz algo que nos deixa intrigados, quando afirma “não deis lugar ao diabo”, tiramos disso algumas conclusões:

  1. Apesar da pessoa já ter sido alcançada pela graça salvadora, ainda sim está sujeita as investidas do diabo;
  2. O “não deis lugar” não significa estarmos totalmente isentos das artimanhas do diabo segundo os planos de Deus. Pois, embora tenhamos uma vida em piedade, ainda sim, pela providência divina, podemos ser afligidos pelo nosso adversário segundo a permissão de Deus para benefício do Reino e do evangelho. Ora, não foi assim com o justo Jó? Ainda, o nosso apóstolo não fora impedido pelo diabo de ir pregar o evangelho na Ásia? Ou, Paulo mesmo não recebeu devida aflição pelo mensageiro de satanás para que ele não se gloriasse? Judas, o traidor, embora não fosse um homem piedoso, não fora usado pelo diabo para cumprir com o plano de Redenção? Portanto, não confundamos tal coisa;
  3. “Não deis lugar ao diabo”, deve ser entendido em seu devido contexto. Paulo, ao afirmar isso, estava instruindo a Igreja a se abster das obras das trevas, isto é, dos desejos da carne (Ef 4:24-32). Portanto, não dar lugar ao diabo aqui é ter explicitamente ter uma vida santa;
  4. Talvez alguns perguntem, “e quanto a 1 Jo 5:18 ‘o maligno não lhe toca’, não é um ensino contraditório?” De forma alguma. João e Paulo estão dizendo a mesma coisa: João diz que todo aquele que é santo (nascido de Deus), o maligno não lhe toca, e Paulo está dizendo para não dar lugar ao diabo sendo uma pessoa santa. O “não lhe toca”, tem o sentido de não pertencer ao domínio de satanás, o diabo tem autoridade sobre os filhos das trevas na medida da permissão de Deus, entretanto os filhos da luz não estão em seu domínio.

Assim sendo, um mal maligno tendo intencionalmente a propagação do caos por parte do diabo, seu fim está totalmente sujeito aos decretos de Deus que pode muito bem revertê-lo para um bem para seu povo – “Porquanto não tinham saído ao encontro dos filhos de Israel com pão e água; antes contra eles assalariaram a Balaão para os amaldiçoar; porém o nosso Deus converteu a maldição em bênção” (Ne 13:2); “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida” (Gn 50:20).

A Santidade da Maldição de Deus

Em contraponto ao que foi dito, temos a maldição de Deus: Santa, terrível e justa dando glória a Deus. A maldição de Deus é lançada para punir e até mesmo destruir aqueles que são maus. Ela é santa, pois odeia a iniquidade; ela é terrível, pois todos os elementos da criação derretem em seu furor; ela é justa, pois manifesta a justiça de Deus. Ela é a consequência imediata da ira de Deus sobre toda iniquidade. Quando Adão pecou, a maldição lançada sobre toda raça humana não foi uma cria diabólica, embora este a tenha provocado por meio de sua tentação a Eva, porém a raça humana está sob uma maldição santa, terrível e justa de Deus, isto é, Deus avisara o Homem da consequência de sua desobediência, a morte por herança, e tudo que estava sujeito ao Homem também fora alcançado por este mal, “maldita é a terra por causa de ti” (Gn 3:17), e todas as coisas externas que se tornaram corruptíveis por conta da queda do homem apontam para a realidade de sua condição eterna – “A sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte” (Ap 21:8).

E sob esta maldição que Cristo padeceu, se tornando maldição em nosso lugar, recebendo em si mesmo o perfeito e santo ódio de Deus. A maldição que esteve sobre Cristo no Calvário era santa, justa e terrível. Para o Justo da Cruz, maldita; mas para seu povo, bendita.

A Bênção da Cruz

A maldição sobre Cristo foi revertida em incontáveis bençãos para seu povo, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” (Gl 3:13). Mais uma vez, “Deus converteu a maldição em bênção” (Ne 13:2). Um Cristo que padeceu em uma aparente derrota, na verdade, foi seu glorioso triunfo – “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Cl 2:15).

O que Recebemos

João 1:16 é um dos meus versos prediletos das Escrituras: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça” (Jo 1:16). Repare o que o apóstolo diz, “recebemos também da sua plenitude”, você sabe o que isso implica? Se olharmos a uma boa distância para um monte muito alto, aos nossos olhos ele parecerá pequeno e, na medida que nos aproximamos, essa visão se depare com esse monte cada vez mais glorioso perante nós, mas diante da plenitude de Deus isso ainda é mais glorioso, ainda que estivéssemos milhas e milhas de distância do monte da glória de Cristo não poderíamos contemplar sua plenitude, a sua glória é mais elevada do que qualquer visão. Por meio do sacrifício vicário de Cristo, os eleitos tem acesso ao banquete da Majestade; tudo o que Deus poderia dar, da glória mais suprema em sua Majestade, foi nos oferecido por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor, pois tudo reside nEle, quer potestades, principados; Cristo é a própria plenitude do Pai, “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua Pessoa” (Hb 1:3) “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9). Que outro bem maior, mais gloriosos do que este poderíamos receber, senão Cristo? “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm 11:36).

Para concluir, na medida que somos constrangidos pelo glorioso sacrifício de Cristo, tiramos três principais lições para nossa aplicação:

  1. A bênção do sacrifício de Cristo nos revela a plenitude de Deus: Não há glória maior a se manifestar aos homens na terra ou aos seres celestiais nos céus ou aos demônios no inferno do que a própria glória do Filho de Deus. Oh, cristão, esperas que Deus lhe dê mais do que já lhe foi dado? Aguardas maior glória do que já lhe está reservada? Aguardas um Redentor mais Glorioso e Majestoso do que nosso Senhor Jesus Cristo? Deleita-te nas supérfluas vaidades desta vida enquanto há para ti um banquete glorioso diante da face de Deus por meio do Santo Justo? Não, pobre cristão, se não te contentas com a plenitude do Deus Vivo em Cristo, nada poderá lhe satisfazer. C. S. Lewis em certo ponto de sua obra, Cristianismo Puro e Simples, diz: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo”. Tens provado disso, caro leitor?
  2. A bênção do sacrifício de Cristo demonstra a realidade dos nossos pecados: Há quem diga que a obra do Calvário mostra o quanto o homem é valioso, porém isso é um erro. A obra do calvário, pelo contrário, mostra o quão o homem é depravado e iníquo; demonstra quão maligno é o nosso pecado. Parafraseando Thomas Watson, a gravidade de uma doença é medida pelo poder de um remédio para curá-la. Somente o próprio Deus, por sua intervenção direta, poderia dar a cura para nossos pecados, somente o sacrifício do Cristo redimiria e satisfaria a ira divina. Nenhum outro sangue purificaria, nem outro homem salvaria, somente o próprio Deus intervindo, se tornando um semelhante, indo nas mais densas trevas, tomando a maldição da queda sobre si mesmo, sangrando em uma madeiro maldito. Somente Cristo poderia nos redimir. A mais elevada glória de Deus exposta na mais baixa humilhação dos homens; isso não mostra o quanto somos valiosos, mas o quanto somos miseráveis.
  3. A bênção do sacrifício de Cristo testemunha o amor de Deus por seu povo: Agora, tem já meditado em tudo que foi descrito, como poderíamos negligenciar o amor de Deus para com seu povo? Oh, cristão, tu és amado com amor avassalador; que não poupou a mais elevada glória de Deus, seu Filho, antes O entregou por nós. Quando somos abatidos, este amor é o nosso consolo; Se afligidos, este amor é o nossos sustento. Deus nos ama por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor, e foi por esse amor que fomos libertas da maldição do pecado; já não há nenhum mal sobre ti, caro cristão. O que mais poderíamos desejar ou possuir além do amor de Deus que nos foi derramado em Jesus Cristo? Não deixemos nos confundir em meios as aflições desta vida em colocar a prova este amor, mas tendo o exemplo de mártires que foram rasgados ao meio, mas que provaram desse mesmo amor que nos alcançou por meio da graça de nosso Senhor. Somos amados em Cristo, não por nossos méritos, mas pela soberana vontade de Deus.

Citações escriturísticas a partir da Almeida Corrigida Fiel (ACF). 2019 © Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Elnatan Rodrigues

Elnatan Rodrigues

Elnatan Rodrigues é Fundador e Editor-Chefe do Ministério Reformai, onde tem cooperado com a publicação de vários conteúdos teológicos. Elnatan também é Editor de Vídeo, Social Media e Designer Gráfico/Motion.

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