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Virgindade: Uma Parábola(18 min de Leitura)

O termo virgindade tem sido pouco frequente não apenas nos círculos seculares, mas também, para a nossa tristeza, em nosso meio cristão. Infelizmente, essa poderá ser, daqui um tempo, uma palavra desdicionarizada e motivo de explicação em nota de rodapé de textos. Quando lembrada e explicada, poderá também ser motivo de chacota se um jovem disser que decidiu preservar sua virgindade. O meu ponto, contudo, neste texto não é tratar diretamente da questão de ser virgem como uma ética cristã, mas buscar os princípios que fundamentam esta ética. Não é sem razão que usei no título a expressão “uma parábola”. Isso porque, assim como uma parábola se utiliza de questões simples do dia a dia para apontar para algum princípio espiritual, da mesma forma ocorre com a virgindade: ela é uma parábola terrena que existe não como um fim em si mesma, mas como um meio didático de Deus nos ensinar alguma coisa muito mais valiosa.

Era muito comum no final de uma parábola contada por Jesus os discípulos perguntarem a Cristo o sentido daquilo que o Senhor acabara de contar, já que praticamente nunca entendiam. Era nesse momento, então, que Jesus desvendava o sentido espiritual da parábola narrada. Nessa esteira, o que esse texto se propõe a ser é a explicação da parábola; o sentido maior e espiritual que se encontra acima de qualquer moralismo “permaneça virgem porque assim é o certo”. O Evangelho puro e simples é mais do que “não pode” por não poder; ele traz consigo a maravilha de se adorar a Deus racionalmente e saber por que estamos fazendo o que estamos fazendo. Se perguntarmos, por exemplo, atualmente aos jovens qual é a orientação bíblica quanto ao sexo antes do casamento, alguns até citariam versos bíblicos e outros inclusive diriam que é pecado perder a virgindade antes do matrimônio. O grande problema, contudo, é que talvez nenhum saiba explicar qual a razão de preservar a virgindade.

Você sabe?

Sinta-se, portanto, convidado a sentar-se e percorrer pelas linhas abaixo para ver como que a ética da virgindade tem tudo a ver com o Evangelho e com o grandioso amor do Noivo, Jesus, por sua Noiva, a Igreja.

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Primeiramente, precisamos cimentar o contexto maior da Escritura. Ela pode ser vista como uma emocionante carta de amor de Deus para o seu povo. Em outras palavras, é também a carta de um noivo apaixonado por sua noiva, que não apenas não é apaixonada por Ele, mas é cheia de ódio, triste e sem esperança. Essa história tem tudo a ver comigo e com você. Creio que sabemos bem quem é essa noiva que, em princípio, nutria um ódio pelo noivo.

A Bíblia nos relata que Deus Pai amou sua igreja de um jeito inexplicável por palavras e pensamentos humanos que decidiu fazer dela uma noiva para seu filho, Jesus Cristo. Só que a missão não era assim tão simples. Essa noiva havia se prostituído e traído seu noivo Jesus. Mas o pior de tudo é que não houve arrependimento. Deliberadamente traímos e decidimos não voltar. Porém, o Noivo decide perdoar e tratar das mazelas da traição dessa noiva. O casamento, pela Cruz, foi refeito e o amor, restaurado.

A pergunta que surge nesse momento é: o que virgindade tem a ver com isso? tudo!

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O apóstolo Paulo diz em Efésios 5.26-27 que Jesus perdoou sua noiva e a purificou e lavou. A ideia é a de uma restauração de vestes brancas. De certa forma, a nossa cultura expressa o conceito desse texto quando atribui a uma vestimenta um estado de santidade. Quando, por exemplo, uma noiva ainda virgem se casa, qual tipo de vestido ela usa? Um vestido branco. Então, quando Paulo fala que Jesus morreu para purificar sua noiva, em outras palavras ele estava dizendo que ela não era mais pura, nem mais virgem. Ela não tinha mais o direito de usar o vestido branco. Essa afirmação pode chocar, mas espiritualmente falando, nós, IGREJA e NOIVA de Cristo, tínhamos perdido a virgindade! Contudo, o noivo comprou um novo vestido branco através de sua morte.

Como aplicar isso, então, à nossa vida? Se essa é a explicação da parábola, qual seria a parábola?

O verso bíblico que vai nos ajudar a entender isso está em 1ª Coríntios 5.17: 

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E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.

1 Coríntios 5:17

Esta expressão – ser nova criatura – aponta para mais do que uma garantia de uma vida eterna.  Tem muito a nos dizer também a respeito da vida presente. Como entender a afirmação de ser uma nova pessoa, nascida de novo, mas ao mesmo tempo tudo isso ser ainda num corpo pecaminoso e mau? Esse aparente paradoxo só pode nos levar para a seguinte conclusão: vivemos entre dois mundos. E a expectativa do vindouro determina a forma como vivemos no presente. Em outras palavras, já temos a posição de ser nova criatura, num corpo de velha, mas no aguardar da forma final.

Nascer de novo, neste caso, não é uma metáfora. Paulo não usa aqui uma figura de linguagem que aponta para o nascimento natural de um bebê, mas trata da realidade de um outro nascimento. É um novo estado: é ser nascido espiritualmente de Deus, contudo ainda aguardando a revelação da plenitude do glorioso estado final. “Final” aqui não significa que estamos progredindo até chegar nesse estado. De certa forma, estamos em progresso, em santificação, porém não para alcançar um estágio superior, mas para confirmar a já completa obra de Jesus na Cruz. Já temos a garantia de um estado final, mas caminhamos ainda em progresso. O ponto aqui, então, é que já temos o estado final garantido agora; a única coisa que falta é o fim dos tempos e a volta de Cristo.

Temos uma pequena ilustração disso, ainda que falha, no futebol. Quando um jovem jogador do futebol brasileiro desponta mundialmente em virtude de seu excelente futebol, rapidamente os europeus “metem o olho” nessa “joia” e disputam entre si quem tem mais dinheiro para comprá-lo. Contudo, quando esse jovem tem menos de 18 anos, ele pode até ser comprado, mas não poderá se transferir para seu novo time.  Ele só poderá ir quando completar a maior idade. Ele, portanto, é o novo jogador do time europeu, mas ainda jogando no time brasileiro. Um exemplo que me recordo é o jogador do Flamengo Vinícius Jr, que foi comprado pelo Real Madri, mas impossibilitado de ir imediatamente por ter ainda, na época, apenas 16 anos. Ele foi comprado. O preço já tinha sido pago, mas não pôde se transferir no momento da compra. Ele continuou treinando e jogando em seu antigo time. Aquele foi o momento de ele mostrar o quanto valeu a pena o time europeu pagar um preço altíssimo por ele.

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Essa ilustração, obviamente, não é perfeita quando comparada com o Evangelho, mas indica algumas questões bem interessantes.

1) Fomos comprados por um altíssimo preço. Isso, contudo, não envolveu dinheiro, mas a entrega de uma vida, a de Jesus.

2) Quando o preço foi pago, passamos a pertencer a outro – “…não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por preço…” – Estamos ainda no time de cá apenas esperando a maior idade – a consumação dos tempos com a volta de Cristo. Esse treinamento significa uma vida de santificação e demonstração de amor pelo seu novo Senhor.

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3) Diferentemente de um jogador comprado por conta de suas habilidades, a nossa compra não envolveu mérito algum. Não tínhamos nenhuma capacidade artística para fazer parte de um time top mundialmente.

Neste ponto, a graça do Evangelho se assemelha a graça de uma convocação sem jogar bem. Continuando a comparação com o futebol, é aquele típico caso de alguém que joga num grande clube apenas por ter um grande empresário, pois lhe falta futebol. Isso é graça no futebol.

A comparação, obviamente, não é perfeita porque, por mais que alguns jogadores sejam ruins, ainda jogam melhor do que muitos de nós, cidadãos comuns e “técnicos de futebol” nas horas vagas. O que o Evangelho diz é que não tínhamos as duas pernas para jogar futebol; os dois braços para jogar vôlei; éramos cegos para jogar xadrez ou dama; ou magros para lutar Sumô.  Isso significa que espiritualmente não havia em nós nenhuma capacidade ou habilidade mínima para ser chamado ao time celeste. Nada. Mas ele nos convocou, e mesmo não tendo habilidades, fomos!

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Agora você pode estar se perguntando novamente: o que isso tem a ver com a parábola da virgindade? Tudo!

O ponto é simples: se em Cristo somos nova criatura, isso significa que, quando nascemos de novo, não mais carregamos o peso de termos perdido a virgindade espiritual antes. O noivo decide “esquecer” e não lançar na conta e na cara de sua amada a traição praticada. Ele mesmo já pagou por esses pecados e já sofreu por eles… Nesse sentido, qualquer sofrimento da Igreja com relação ao pudor de ter perdido a virgindade espiritual seria desconsiderar a sofrimento do Noivo.

Estamos chegando ao ponto principal. Falamos da explicação da parábola, isto é, de seu sentido espiritual. Agora precisamos falar, de fato, em termos de parábola.

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Certa vez um senhor bem idoso sentou-se em sua cadeira de balanço, em sua casa, na cidade de Armação dos Búzios, e contou a seguinte parábola para seu neto:

– Querido neto, o reino dos céus é semelhante a uma jovem cristã, nascida verdadeiramente de novo, que decide preservar sua virgindade. Ela sabe que espera por ela um noivo cristão que também se preserva, e nesse sentido, ambos mostram respeito e amor pelo outro.

– Vovô, disse o neto, me explica o que significa isso e o porquê de ter que ser virgem. Não vejo sentido nisso!

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Então disse Seu Joabio, o avô: 

– A jovem é a Igreja, nascida de novo; o jovem é Jesus. Embora Ele já tenha morrido por sua amada e ambos já tenham a certeza do amor um pelo outro, eles ainda não se casaram. O casamento de fato foi garantido na cruz, mas o clímax sexual dessa união ainda ocorrerá. Portanto, assim como eles, a Igreja e Jesus, não chegaram ao deleite da união mística porque o dia das bodas ainda não chegou (Apocalipse 19), da mesma forma os jovens devem se preservar e aguardar o dia das bodas, o tão aguardado dia do casamento. Eis a razão da importância da pureza antes do casamento, meu neto Gerinho. Isso aponta para o Evangelho.

– Mas não acaba por aí…

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– O Reino dos Céus também é semelhante a uma jovem cristã, também nascida de novo, mas que antes desse novo nascimento não havia preservado essa pureza. Ela não era mais virgem.

– Vovô, essa história eu também não consigo entender.

– Esta jovem, Gério, é também a Igreja. Quando é dito que ela nasceu de novo, isso significa que ela nasceu de novo. Não há mistério aqui. Quem nasce não se lembra de um passado justamente por ele não existir. Ninguém vê um bebê nascendo e já se recordando de sua vida pregressa; sua vida está começando ali naquele momento. Obviamente, meu neto, que humanamente ela vai se recordar de seus erros, mas o seu novo estado de nova pessoa em Cristo dá a ela o direito de ser declarada pura e sem mácula por seu Noivo. Ela também ganha um novo vestido branco!

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– Vovô Joabio, preciso entender melhor isso…

– Eu estou dizendo, neto Gerinho, que, mesmo que esta jovem tenha perdido a virgindade anteriormente, a partir do momento que ela se tornou nova criatura, a mesma foi também justificada, santificada e lavada. O desejo de Jesus, por isso, é que ninguém a julgue ou a maltrate, porque Ele já foi maltratado e julgado no lutar dela. Ele a ama! Essa noiva significa toda a Igreja.

– Finalmente, Gerinho, quero lhe contar a última parábola:

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– O Reino dos Céus também é parecido com uma jovem nascida verdadeiramente de novo, mas que mesmo assim cedeu às tentações sexuais da velha natureza. Ela perdeu a virgindade, mesmo já sendo nova criatura.

Neste momento, antes mesmo que o avô continuasse, o neto o interrompe com um ar de incredulidade e impiedade e pergunta:

– Mas isso é possível, vovô? Ela não pode de verdade ter nascido de novo! Veja o que ela fez!

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Então, o avô pacientemente continua:

– O noivo, Gerinho, certamente se entristece, mas se recorda que sua noiva, mesmo sendo nova criatura, ainda vive num corpo pecaminoso. Ele sempre desejou que seu noivado com ela fosse de amor mútuo e comunhão constante; mas infelizmente, ela se afastou do seu Noivo por pouco tempo, mas o suficiente para ir longe demais… É neste momento que o Noivo, Jesus, pega sua carta de amor escrita a essa noiva e a faz recordar de algumas de Suas palavras:

Se você confessar e reconhecer que errou, eu sou fiel para te perdoar e te purificar

1ª João 1.9 – ênfase acrescentada por mim

Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.

Jeremias 31:3

– Ela, meu neto, desesperada e sem esperança, ainda vê nas mãos de seu noivo as (antigas) novas alianças e chora… mas agora sabe o que significa amor eterno. Ela é restaurada e purificada novamente. Isso tem que ser suficiente, Gerinho, para que ela nunca mais se entregue aos braços de outro noivo. Ela encontrou um Noivo que é digno acima de todos. Nenhum outro tem amor eterno como o de Jesus!

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Quero finalizar este texto apelando para que os líderes de igreja voltem a falar da importância da preservação da pureza sexual. Mas que não voltem falando com a linguagem do moralismo, mas que expliquem a parábola para essa geração. A virgindade é mais do que lutar para não fazer sexo; ela aponta para o Evangelho.

Esperar até o casamento é a forma de pregar com a vida e com a parábola do noivado puro que a Igreja e Cristo estão aguardando também o casamento entre eles. Ser uma só carne através da união sexual, por exemplo, pode nos dizer muita coisa a respeito do deleite que teremos no casamento com o Noivo, Jesus.

Vivemos rodeados de discípulos. Não que todos a nossa volta sejam devotos seguidores de Cristo, mas sim porque, assim como os discípulos de Cristo não entendiam as parábolas, existem pessoas atualmente que não compreendem esta parábola da virgindade. Elas não entendem a razão. Ser virgem, para elas, não faz sentido. Que sejamos, portanto, capazes de explicar o real sentido não apenas com palavras e com a explicação, mas também com a parábola vivida.

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2020 © Rodrigo Caeté. Para o uso correto deste recurso visite nossa Página de Permissões.

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caeté

Rodrigo Caete é Pós-Graduado em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (Mackenzie); Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional de Niterói; Mestrando pelo Instituto Reformado Santo Evangelho; Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pastor da UIECB. É autor dos livros "Púlpito Feminino", "O Cálice do Evangelho", "O cálice da ira sem mistura" e "Pregadores nas mãos de um Deus irado".

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